Caía uma chuva fina. As pessoas se apressavam, levantando sobre a cabeça
o guarda-chuva aberto; de repente formava-se um tumulto na calçada. Os homens eram
amáveis, e passando perto de Tereza, levantaram o guarda-chuva mais alto para abrir-lhe espaço, mas as mulheres não se afastavam um milímetro. Olhavam em frente, com o rosto duro, cada uma esperando que a outra se confessasse fraca e capitulasse. O encontro dos guarda-chuvas era uma prova de força. No começo, Tereza se afastava, mas quando compreendeu que sua cortesia jamais era retribuída, seguiu o exemplo das outras, passando a empurrar com mais força o guarda-chuva. Muitas vezes seu guarda-chuva esbarrava violentamente num outro da frente, mas nunca se ouvia um pedido de desculpa. Em geral, ninguém abria a boca; duas ou três vezes,
porém, ouviu: "Puta!" ou "Merda!". Entre as mulheres armadas com guarda-chuva, havia jovens e mulheres mais velhas, mas as jovens estavam entre as combatentes mais intrépidas. Tereza lembrava-se dos dias da invasão. Mocinhas de minissaia passavam, e tornavam a passar, carregando a bandeira nacional na ponta de uma vara. Era um atentado ao pudor contra os soldados russos, forçados por muitos anos à abstinência sexual. Em Praga deviam imaginar que estavam num planeta inventado por mulheres incrivelmente elegantes, exibindo seu desprezo, empoleiradas em longas e bem torneadas pernas, como há cinco ou seis séculos não se viam em toda a Rússia.
Durante esses dias havia tirado inúmeras fotos dessas mulheres, tendo ao fundo tanques de guerra. Como as admirava então! E eram exatamente essas mesmas mulheres que via hoje, avançando em sua direção, rabugentas e vulgares. Em vez de bandeira, carregavam um guarda-chuva, mas carregavam-no com a mesma arrogância. Estavam dispostas a enfrentar com a mesma fúria um exército estrangeiro e o guarda-chuva que se recusava a dar passagem.

- Milan Kundera, Nesnesitelná lehkost bytí.

Filosofia


Inebrie tua glória, retumbe a majestade, grite ao ventos os fundamentos de vosso brado, ergue aos céus toda sua sabedoria. Por Clio, que todos os governantes curvem-se diante da Sabedoria do Tempo. Delfos passados, maestros regentes da vida que herdarão as belas artes, orem por todos nós. Da filha de Zeus, Minerva, fará brotar do ventre de Gaia a semente da mais exímia poesia fazendo nascer a mais belo lírio. Grita, mas grita em sussurro, faz levantar aqueles que caíram, com um sopro, que agora dediquem-se a Glória de suas narrativas. Que as infinitas páginas não sejam torturadas pelos pecados de profetas infames que não sentem o leve toque da mão feminina e pesada. Que os olhos daqueles que não acreditam na força da tua justiça sejam cegados pelo brilho da espada. Que sejam embebedados pelo néctar fatal todos aqueles que difamam e desafiam vossa sabedoria. Que sua beleza jamais contemplada, que move céus e terras e fazem dançar as estrelas, ofusque os perdidos e teimosos que insistem em desviar-se do caminho do Olimpo. Que os planetas continuem a girar ao redor do seio da Mãe no ritmo e no ciclo da vida. Que as palavras de todos aqueles que te seguem sejam abençoadas e que possamos carregar pela eternidade, toda a sabedoria de tuas verdades, suaves, inquietantes e por vezes, fulminantes. Alimentada sou eu, que de alma entrego-me a mais bela entre as belas, feliz aqueles que carregam as palavras da Filosofia.


E são as incertezas do caminho da vida que torna tudo tão interessante. Os ventos sopram errantes, diferente do costumeiro e repentinamente entoam uma canção nova e ainda mais bela como os arautos de Zephyros. Sem demais explicações, o alvo aqui não cabe a nenhuma palavra. Não posso deixar que minha inépcia poética macule em junção ás belas palavras que se erguem majestosamente ante os olhos. De onde surgiu e o que pretende, não sei, não me interessa, apenas a contemplação de tamanha arte é o suficiente para suprir minhas necessidades e desejos literários. Vejo aqui, vida demais para uma pequena alma, inconstante e néscia, não sei como devo me comportar. O que resta então? A gloriosa forma de escape. A Torre de Marfim, lá no alto, o universo platônico, meu mausoléu de honras e glórias. Suas paredes são feitas de sonhos interrompidos e desejos não saciados, esperanças mal colocadas como folhas que se perdem com o vento, e como deve ser, encontram o chão, estéril. Não deixo que as incertezas que assolem, não posso assustar-me agora. A face bela será a surpresa, o sentimento será finalmente gratificado, essa é única chance, uma meteórica estrela como esta é mais do que eu precisava para seguir sempre em frente. Com sorriso na face, a estrada árida, deserta e fria da vida se torna um espetáculo colorido e refulgente, a dura realidade já não amedronta. Não são nos leões que se escondem as grandes forças.

Estação...

E junto com a primavera, nascem os amores e carinhos que colorem o céu com um azul jovial que ri como uma criança em sua inocência. O vento não passava de um mimo para os namorados, inebriados na sua riqueza em primavera romanesca, respiram juras de amor eterno, transcendentes. A existência de ambos era calorosa, os dois agora, apenas um, em uníssono, sem vozes sepultais ou pensamentos de qualquer índole, basta, somente, que se troquem os ares e que as árvores voltem para o seu claustro natural, para que as promessas, tão copiosas e duradouras, caiam como folhas exaustas levadas por um vento outonal, caídas do pé das Ilusões. O azul do céu se desbotava e gargalhava de forma funérea, o frio era boreal, como um choro angelical que castigava, colore a vegetação idílica de branco, um branco indiferente e gelado, tirando a cor de cada traço daquele amor vermelho pulsante, agora pequeno e distante como uma lembrança indesejada. Triste fraqueza humana. Fome, vontades e desejos, a sede de um beijo...Não se pode esperar a época do degelo, mal sabem, pobre casal, que tímidas promessas já se formam sob o gelo, para o início de uma nova primavera...

Esqueletos Sociais ?


O hábito rotineiro era monocromático, contaminado por fuligem e pouco caso. As trilhas eram (des)coloridas de antipáticos tons cinzentos, sob um teto bravo, repleto de tormentos e empobrecimento, planava lá no alto uma onipresente aparição de consciência, desvelando o caos e cochichando, aos gritos cacofônicos, que nada daquilo ali fazia sentido, era apenas uma seqüencia de acasos frios sem propósitos aconchegantes.
Observando ao meu redor, vejo que não ah ninguém nem nada ali para mim. Meus passos estavam sendo guiados para a inexistência.
Os arranha-céus escuros, cresciam quase que infinitamente e escondiam o cume lá no alto mais alto, sob as nuvens negras colossais, cumulus-nimbus noturnal. Em cada um destes milhões de prédios existem inúmeras janelas e atrás destas janelas existem espectros apreciando sua miséria, com vazios olhos tristes e pensamentos egoístas. Não passava aquilo tudo de uma simples edificação sem moral que engana sobre sua própria existência e que incoerentemente, acreditava em si mesma. As calçadas próximas aos arranha-céus retumbavam um grito sujo de escárnio, ecoando gozo e avacalhação, berrando pelos Deuses e pelas monstruosidades. As ruas tortuosas se encontravam sempre na mesma esquina do acaso, como velhos amigos que se encontram e vão ao cabaré mais próximo.
Algum significado até aqui ? Não... Vamos adiante...Em frente encontro a ética, a moral e o código, juntamente com todo esse tipo de sujeira de leis e religiões de povos doidos, oposições anarquistas de loucos sábios, débeis sonhadores...tudo isso correndo por valas abertas, despejando-se nos bueiros de odor insuportável, misturando a dor da convivência social e o descaso...Faltam as cores alegres, faltam corajosos, falta humanidade. Quem foi que deixou as coisas chegarem a este ponto ? Alguma criança. Alguma criança que caiu no próprio conto e não ah ninguém para salvá-la.
Observo mais atentamente, que lugar é este afinal? Tudo ao redor convergia em um mesmo centro, um buraco esquecido da alma...E até a estátua perdeu sua imponência, vê ela ali, toda destruída sem braços e cabeça ? Pois é, monumento da inexistência...
Hoje, foi um dos dias raros. Dia de desparafusar a porta do meu universo e visitar a órbita alheia, voltei com a certeza de que vale somente minhas utopias pessoas e nada mais, e não é que falta vontade para/com o universo alheio, mas é que sobra apatia somente.

Dawn of a New Century!


Daqui do alto de minha Torre de Marfim, não vejo ninguém, além de ninfas e brumas fazendo suas cantorias e brincadeiras diárias. Minha voz aqui ecoa distante, de uma forma que só pode ser ouvida por um vento triste de um céu indiferente.
Leio poesias, profiro palavras sábias e bonitas, porém, são todas inaudíveis, já não fazem parte desta realidade. É como uma mentira que eu mesma criei, acreditei, para que, de certa forma, me sentisse confortável, cega, diante dessa tão maquiavélica realidade mundana. Se eu tento tocar este mundo, com um dedo que seja, tímido e medroso, um sopro de ar frio me desencoraja. Então daqui, só observo. Pessoas..Pessoas que passam por um falacioso profeta qualquer, vindo de qualquer ponto do fim do mundo e deixam-se levar por suas palavras jocosas, falsário que encanta a todos os humanos dali com uma mediocridade incrível assim como um serpente destila o seu veneno...E eu, por fim, caio na real. No meu real. Uma enrascada surreal que dói, mas é tentadora, absurdamente tentadora...Não existo e não deixo referências. Continuo ali, estática, contrita entre as regras e leis de uma vida normal e o caos dionisíaco. Resolvi então optar pela última opção e fazer do caos, o meu bálsamo, é sempre um excelente ponto de fuga para ignóbeis que adoram rondar meus espelhos, sujando de ignorância este vidro fino e delicado que me mantém afastada de coisas que desconheço, me mantém afastada desta coisa ridícula que chamam de vida. Observando mais atentamente, enchi-me de cólera descomunal por não compartilhar dessa juventude atual cheia de infantilidades e futilidades alcançadas somente pelos mais selvagens, impetuosos e imbecis heróis cotidianos, ridículos como só os humanos podem ser. Diante disso, o que me resta? O tudo! O universo está aqui na palma da minha mão, e, por mais que eu a feche, ele escorre por entre os dedos se fazendo poeira estelar de vidas de infinitas cores e odes...embriago-me nos meus pensamentos, tão insanos e insossos...tão perfeitos á minha ótica, axiomas vazios, monólogos da minha alma de virgem que jamais será violada por um feroz abutre qualquer. Fico assim, agarrada ao meu abstrato, enciumada, violenta, por vezes louca, esperando um diamante que jamais será desejado por ninguém, a não ser eu mesma. Alma virginal de águas embaraçadas e de safiras brilhantes que encontra carinho no seio das palavras e das filosofias e que me guiam para eternidade da minha existência em um tempo de nova Era.

Sono...


O firmamento não me parece mais tão firme, pois respinga seus horrores sobre mim.
Cada pingo, um meteoro gigantesco, fulminante em velocidade absurda pronto para colidir e destruir. Quem é que pode dormir em sossego se lá fora um leão faminto ruge enquanto cai uma tempestade atroz de lamúrias e obscenidades, fadadas pela ansiedade?
Uma nuvem de mágoas e anátemas vem se aproximando, ação do vento de desespero e terror fazendo a noite se prolongar ainda mais. O relógio ao lado da minha cabeceira se transforma em um brinquedo macabro, uma ceifadeira que se move ao compasso dos segundos, anunciando o lapso eterno, com exatidão, o minuto e a hora em que a vida terminará. Os lençóis da minha cama agora estão imundos, putrefatos, sujos com a vergonha, não escondem mais as infâmias espirituais, as aberrações da alma, o pecado original, agora são só um peso de condenação velada, carniçaria subjetivada. Meus olhos não piscam, não consigo mover as pálpebras, pois tenho que acompanhar as atrocidades dos falcões assassinos invisíveis, os hereges inexistentes que me perseguem imaginariamente, o sono por si, é só, presente de hecatombe. Fogueira da inquisição, desassossego eterno. Meu quarto, meu refúgio, palácio sinestésico. O terror do sono.

Novo Titã


E minha escuridão me pegou para sempre, não adianta Hécate retirar seu manto negro de cima de mim. Não reconheço mais rostos diante de meus olhos, ainda que fosse aclarada pelo raio de Zeus . Não sinto também o chão sob meus pés, mesmo que Ártemis se curvasse em minha frente. O céu sumiu, ninguém viu, nem mesmo Urano conseguiu o segurar com sua mente forte. O vento havia parado, e seria ineficaz até o mais forte dos sopros de Éolo. De que me adianta a centelha dos primórdios do Caos se não tenho inocência suficiente para caminhar sobre o Elísio destinado a nós, viventes? Todo o Olímpo não seria suficiente para me tirar desse péssimo êxtase natural, presente desde meu primeiro suspiro na realidade consciente. Hesíodo poderia cantar mil bravuras de Zeus e Apolo, Hércules e Ciclope, nada me comoveria e nem me removeria do estado de catarse em que meu pensamento se encontrava. O presente enviado por Hermes não teria utilidade nenhuma, e o amor de um Euro não tiraria de mim qualquer tipo simpatia. Não desejo o escudo de Minerva, nem a lança de Atena. Eros não vence tudo e as Ninfas não tem uma boa melodia para esta hora. Não sai do meu corpo o pessimismo, tão pouco o desejo ou a esperança. Não há nada que faça eu me locomover. Não existe outro brilho nos meus olhos a não ser o de um único desejo. Se minha alma incendiar, queimará com apenas uma chama. Ela brilha para o meu Cavalheiro, meu mais novo Titã, a quem, sob relíquias santificadas, jurei ser fiel, meu bravo cavalheiro, tão errante...

Poseidon


E por um decreto dos Deuses, o mar nos foi proibido. Os rochedos altos, as costas brilhantes com ondas de cristal que quebravam ao colidir-se com as rochas, agora não passa de um sonho distante para aqueles que ouviram sua histórias. A torre alva elevava- se lá ao sul, como um imenso astro de Marfim, esta será a luz de esperança nessa época tão gélida e tão tristonha de lamentações e sombras macabras.
Eu pergunto: Onde estão os heróis? Sim, eles, os altruístas que sacrificam-se por míseros sinais de luz ? E as riquezas que os piratas sempre vinham buscar ?
Clamei por um marinheiro. Sim, ele! De nobre linhagem, único de coragem. Pedi a ele que enfrentasse o gigantesco oceano traiçoeiro que tinha olhar penetrante, azul surreal....
Pedi que, como uma ave da realeza e paz, voasse até o seio da honestidade. Pisou descalçado na areia fina de uma pequena praia de lucidez. Nesse lugar, a tal da imortalidade nunca havia sido tão suja por homens simples de sangue forte.. Em um ato de bravura e empáfia, o marinheiro foi abraçado pelo Deus dos Mares...Foi concedido a ele uma proposta: Devolver-nos-ia nosso belo Mar se o marinheiro permanecesse de vigília durante toda a eternidade. Proposta aceita. A lua e ao Sol foi dado o espírito de astros imortais, protegendo assim todo o firmamento. Lá, além dos limites da existência, as sombras voavam já sem as correntes dos pecados. Dia e noite o marinheiro viajava, empunhando sua espada e sua bandeira, pronto para brigar com o frio e a morte, tendo na face o brilho dos Deuses, a luz da vida, estrela do coração do oceano.

Lúcido Pesadelo


Sonhos lúcidos. Tão vivos... Monocromos de silêncios gritantes. Quem foi que despejou a desgraça contando esta piada funérea? A confusão caótica jamais foi bela, quem ousou fantasiar essa realidade com um paradoxo árduo? Como uma criança, eu digo: Não quero mais brincar! Acenda-me a luz, por favor. O escuro está muito claro, de tão escuro, está claro! Acendam de uma vez! Eu nunca pedi para estar aqui, alma vivente em contrastes tão macabros...Não quero fazer parte das antíteses, não gosto de comer sobras e não gosto de ombrear o amor com ódio. Falsidades não mais. Não desejo as rosas bonitas e perfumadas e também não quero o sangue... Chegou a minha hora de rejeitar esse cinema sinistro de banquete surreal. Estou exausta de ouvir seu pio funesto, corvo metálico. Volta para a Estinfale, enquanto eu me refaço ao poucos e tomo ânimo para voltar a tranqüilidade. Sempre achei que isso tudo era um sonho, não mais. É difícil reconhecer um letargo... Pesadelos vivos que insistem em quebrar minhas noites de cristal.

Molto Vivace !


Sob o som da gaita-de-foles, lerei uma miserável ária que treme em meus lábios. Ao som do violino, as belezas do passado vão dançar, envolvidos pelas cores inebriantes que se movimentam conforme o fogo ordena. As palavras, os vocábulos viajam guiados pela atmosfera da fantasia vão, majestosamente, formando a mais bela ode, cheias de sóis poentes, cometas e caudas, estrelas e brilhos, molhadas com orvalho e brisa da manhã, resultantes de uma belíssima aurora boreal. Palavras e notas, em harmonia perfeita como se fossem serpentes encantadas por uma flauta hipnótica. O som mágico das harpas te faz esquecer teus problemas e dores. Hoje, o crepúsculo é para a dança, nada de prantos. Ignore a realidade. Sonhos de cristal, suspiros de ametistas polidas, olhares de safira, amores de diamantes. Tudo o que você precisa, neste momento, está aqui. Cerre os olhos, abra os braços, estenda as mãos. Sinta com toda a imaginação que tiveres este presente dos céus. Ouve o druida cantar, ouve a harpa da fada, ouve a voz suave da ninfa. Querem que você viaje com eles, embarque, aventure-se! Só por alguns segundos e mais toda a eternidade. Ouça a melodia, é pra ti esta canção.

Espelhos...

Muitas vezes me perguntei sobre o valor da diferença, se é que pode haver nisso algum valor. Tentava, ingenuamente, entender a alma alheia como se fosse a minha própria, buscava compreender qual era a motivação que os levava a existência, o que é que forçava seus sentimentos. Tirava por poucos segundos o manto do egoísmo, afinal, eu tenho um coração. E lá estava eu, uma observadora que tinha receio em tocar a paisagem, eu era como um sombra, que prefere ouvir, falar pouco, pensar a agir, eu era um sussurro. Os afazeres eram exaustivos e era difícil esquecer de mim, esse era o peso mais enfadonho. No alto da minha consciência, eu voava... uma boba, azeda, amarga, ruim e freqüentemente preocupada. A máscara, os disfarces, guardei todos no armário, amassei as fadas para dentro dos livros novamente, pedi para que cessassem as cantorias e as brincadeiras. Olhei para os outros, estes, por sua vez, tocavam músicas tristes e o sorriso não era belo, era sofrido. Nas músicas destes seres, foi que eu vi que era a outra, porque eu prefiro ser a outra, ter outras dores para me queixar, aprender com outros erros, me apaixonar por outros, outros amantes. Um altruísmo platônico creio eu, que vive em um castelo cercado por muralhas e feras indomáveis e que possuía milhões de espelhos. Eles mostravam o reflexos de outras vidas, de momentos perdidos, beijos não dados, abraços negados. Diante disso, eu, inocentemente gritava de sofrimento, e sem perceber, desviava os olhos para dentro de mim mesma, via que tudo que o espelho refletia era nada mais do que o meu próprio eu, porque eu tinha medo de encarar, e corria.
Desta forma, parei de me machucar com dores alheias, não procurei mais sofrimento em terras distantes. Arranjei uma pá e fui escavar minha alma, esmiuçar meu espírito, procurando preciosidades trancafiadas em baús de madeira velha com fechaduras de ouro, era ali que minhas vontades estavam.
Antes, era eu uma sombra invisível vagando por outros seres, agora sou sombra vagando para mim mesma, sempre na esperança de que um dia desses, eu possa explodir de vez no mundo. Espero com ansiedade pelo dia em que vou nascer, dar meus primeiros pequenos passos e balbuciar minhas primeiras palavras, já tão cansadas de procurar quem as ouça, exibir meus primeiros sentimentos, para quem sabe, atingir como uma flecha aquilo que costumam chamar de existência.

Muda


Quem pode, ou quem ousa, traduzir os dialetos desconhecidos de uma era passada onde havia sensibilidade e felicidade? Nem ao menos consigo ser direta, nem atinjo a fronteira do poeta, nem do vidente. Continuo vagando em um limbo de vocábulos, sem anseio de que essa linha tênue de literatura realista me cultive ainda no Panteão que não me compete. Falar? Mais inútil ainda. São todos surdos. Meus discursos não são para todos. Quem sabe não é para ninguém. Mas esse dialeto estranhíssimo apenas eu compreendo e é o que me faz transcender em meio ás florestas boreais. Outro dia, falei aos pássaros sobre a minha auréola de loucura. Falo introspectivamente e não deixo o tímido se confortar. Falo sozinha, para mim e ninguém mais. Meu templo não precisa de ajuda para ser erguido e minha fé é inabalável, implacável, dedico ela toda aos Deuses que não possuem nome, que são invisíveis e habitam lugar nenhum.

Mank valkyrjur...


15. Þá brá ljóma
af Logafjöllum,
en af þeim ljómum
leiftrir kómu,

hávar und hjalmum
á Himinvanga,
brynjur váru þeira
blóði stokknar,
en af geirum
geislar stóðu.[14]



15. Then glittered light
from Logafjoll,
And from the light
the flashes leaped;

High under helms
on heaven's field;
Their byrnies all
with blood were red,
And from their spears
the sparks flew forth.[15]



15. Then gleamed a ray
from Logafiöll,
and from that ray
lightnings issued;
then appeared,
in the field of air,
a helmed band
of Valkyriur:
their corslets were
with blood besprinkled,
and from their spears
shone beams of light.

Hoje, vi coisas invisíveis. Olhei nos olhos de alguem pela primeira vez. Olhei nos olhos da vida.

Egoísta Arte Artista Autista...


Aquele que sofre, é apenas egoísta. Sim!. Artista decadente, escultor rompido que vê a arte em si mesmo. O corpo clama por estética, algo sublime, sim, mas que confunde-se com sentimento, mistura-se com elementos do espírito que alimenta-se de vidas exteriores. Tristezas e alegrias são estados volúveis, estéreos que se origina da arte que não se vê, mas se sente. Um álacre ignorante deseja somente deleitar-se aos restos de uma obra-fantasma. Um bobo-alegre que quer somente admirar o opus que depara-se em frente ao espírito. Quer ser o espectador e quer dançar em sua amargura, quer ser o artista, que com inigualável sensibilidade, produz o mais melancólico de todos os quadros, quer ser ainda, um egoísta intocável, quer somente para si sua própria arte. Crê seriamente, que ele está tomado por completo..
Tristeza precisa de tristeza para continuar existindo. Ás lágrimas... o soluço cambaleia no orgulho medíocre. Sentir-se inferior, queima.... A alma vai se esvaindo, assim, aos pouquinhos...deixa o corpo aqui, vazio, sem vida, sem motivação, mergulhado no arquetípico do sentimento incompreendido.

Egoísta. Arte. Artista. Autista.

Marinheiros Errantes


Enquanto a cabeça está erguida, majestosamente no frio cortante e gelado de uma tempestade, os olhos contemplam o infinito azul e negro. Lá á frente, marinheiros gritam com horror fazendo um eco distante e triste na imensidão, como se fossem badalos de um sino sinistro que soa incessantemente. Flutuar em mar bravo assim não é tão diferente quanto o mergulho que damos na solidão. Bem no fundo, não conhecemos som algum, o silêncio é contínuo e até o trovão emudece. Os céus feitos de areias dos desertos, perímetro da eternidade.
Coloca tua mão no leme, avante! O Horizonte nos aguarda, não só o horizonte, mas também as cascatas onde se derrama o universo, onde existem pilares gigantescos, maiores do que aqueles que sustentam o firmamento, onde a via-láctea faz as estrelas colidirem entre si, onde a nossa vida se resume em uma única gota de água. Lá navegamos nós, marinheiros solitários, errantes. Já nem lembramos o nome de nossa nave. Estrelas do crepúsculo...





No princípio, era caos. E assim foi por toda a eternidade. Sincronia, sincronia...

Tu, ego

Não existe Inglaterra, não existe Escócia. As jóias do tesouro sumiram, a ética fugiu do sopro e o horizonte, escuro é. Falta espaço para a respiração. Não existe nem mesmo espasmos. Nada de suor. Nada de Rei, de rainha ou de herói. O dragão afugentou-se, a magia agora é escassa. A consciência do dever me persegue, infelizmente.

Fome

Existe em mim uma sombra estranhíssima, ela vive colada a mim. Ela adormece, mas acorda faminta, hiante. Ela irá devorar tudo que lhe surgir a frente, deixando-me vazia, oca. Ai de meu ser que não acompanhar a sua fome! O fogo machuca vosso apetite, mas machuca...mas...

Bukowski

"Como qualquer um pode lhe dizer, não sou um homem muito bom. Não sei que palavra usar para me definir. Sempre admirei o vilão, o fora-da-lei, o filho-da-puta. Não gosto dos garotos bem barbeados com gravatas e bons empregos. Gosto dos homens desesperados, homens com dentes rotos e mentes arruinadas e caminhos perdidos. São os que mais me interessam. Sempre cheios de surpresas e explosões. Também gosto de mulheres vis, cadelas bêbadas que não param de reclamar, que usam meias-calças grandes demais e maquiagens borradas. Estou mais interessado em pervertidos do que em santos. Posso relaxar com os imprestáveis, porque sou um imprestável. Não gosto de leis, morais, religiões, regras. Não gosto de ser moldado pela sociedade."

Charles Bukowski

Inferno Real

Fizeram a gente acreditar que amor mesmo,
amor pra valer, só acontece uma vez,
geralmente antes dos 30 anos.
Não contaram pra nós que amor não é acionado,
nem chega com hora marcada.
Fizeram a gente acreditar que cada um de nós
é a metade de uma laranja, e que a vida
só ganha sentido quando encontramos a outra metade.
Não contaram que já nascemos inteiros,
que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas
a responsabilidade de completar o que nos falta:
a gente cresce através da gente mesmo.
Se estivermos em boa companhia, é só mais agradável.
Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada
"dois em um":
duas pessoas pensando igual, agindo igual,
que era isso que funcionava.
Não nos contaram que isso tem nome:
anulação.
Que só sendo indivíduos com personalidade própria
é que poderemos ter uma relação saudável.
Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório
e que desejos fora de hora devem ser reprimidos.
Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros
são mais amados,que os que transam pouco são caretas,
que os que transam muito não são confiáveis,
e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto.
Só não disseram que existe
muito mais cabeça torta do que pé torto.
Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula
de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela
estão condenados à marginalidade.
Não nos contaram que estas fórmulas dão errado,
frustram as pessoas, são alienantes,
e que podemos tentar outras alternativas.
Ah, também não contaram que ninguém
vai contar isso tudo pra gente.
Cada um vai ter que descobrir sozinho.
E aí, quando você estiver
muito apaixonado por você mesmo,
vai poder ser muito feliz
e se apaixonar por alguém.

O Mundo Em Que Nada Se Resolve

(E. M. Cioran)

Há alguma coisa na terra de que não se pode duvidar além da morte, a única certeza deste mundo? Duvidar e continuar vivendo – eis um paradoxo, embora não um paradoxo trágico, desde que a dúvida é menos intensa, menos consumptiva do que o desespero. A dúvida abstrata, da qual se participa de maneira parcial, é mais freqüente, enquanto do desespero se participa total e organicamente. Nem mesmo as formas mais orgânicas e sérias da dúvida atingem a intensidade do desespero. Comparado ao desespero, o ceticismo se caracteriza por um certo volume de diletantismo e de superficialidade. Posso duvidar de tudo, posso sorrir com desdém para o mundo, mas isso não me impedirá de comer, de dormir pacificamente ou de me casar. No desespero, cujas profundidades só podemos sondar experimentando-o, tais ações são possíveis apenas com um grande esforço. Assim, um homem genuinamente desesperado não pode esquecer a sua própria tragédia: sua consciência preserva a atualidade dolorosa de seu tormento subjetivo. A dúvida é ansiedade quanto a problemas e coisas e tem suas origens na natureza insolúvel de todas as grandes questões. Se tais questões pudessem ser resolvidas, os céticos reverteriam para estados mais normais. A condição do desesperado, a esse respeito, é totalmente diferente: se todos os problemas se resolvessem, ele não se tornaria menos ansioso, já que sua ansiedade emerge de sua própria existência subjetiva. O desespero é o estado no qual a ansiedade e a inquietude são imanentes à existência. Ninguém, no desespero, sofre com “problemas”, mas com o seu próprio tormento e fogo interior. É uma lástima que nada possa ser resolvido neste mundo. No entanto, nunca houve, nem nunca haverá, alguém que se suicidasse por essa razão. E o mesmo vale para o poder que a ansiedade intelectual exerce sobre a ansiedade total de nosso ser! É por isso que prefiro a vida dramática, consumida por fogos íntimos e torturada pelo destino, à vida intelectual, enleada em abstrações que não engajam a essência de nossa subjetividade. Desprezo no pensamento abstrato a ausência de riscos, de loucura, de paixão. Quão fértil e vivo é o pensamento passional! O lirismo o alimenta como sangue bombeado para um coração! É interessante observar o processo dramático pelo qual os homens, originalmente preocupados com problemas abstratos e impessoais, tão objetivos a ponto de se esquecerem de si mesmos, passam a refletir sobre sua própria subjetividade e sobre questões existenciais, quando experimentam a doença e o sofrimento. Os homens ativos e objetivos não dispõem de suficientes recursos interiores para fazer do seu próprio destino um problema interessante. É necessário descer por todos os círculos de um inferno íntimo para converter o destino de alguém num problema subjetivo e também universal. Se não fores reduzido a cinzas, então serás capaz de filosofar liricamente. Somente quando não te dignas sequer de desprezar este mundo de problemas insolúveis alcançarás uma forma superior de existência pessoal. E isso acontecerá não porque tens qualquer valor especial ou qualquer excelência, mas porque nada te interessa para além de tua própria agonia pessoal.

Zoroastra

Um elefante trouxe-me uma encomenda importantíssima.
Fadas alcólatras albinas direto da Irlanda. Sem elas, como eu alimentaria as feras ascetas negras de minha alma?
Uma das fadas, Zoroastra, está muito íntima da fera, o terrível Hagar comedor de cérebros.
Tenho a impressão que um romance aflora entre fera e fada.
Isso explicaria a sobrevivência da fada ?
Mas me pergunto: Que perigosa prole nasceria de tal amor?

Novos Templários


...E eu vos digo que compartilho da mesma opinião deles, mais ainda, aliciar-me-ei aos novos Cavaleiros Templários! Mas não concordo com a necessidade de que devemos permanecer nos limites divinos e que devemos ficar a mercê de um bode expiatório. Atenham-se a aprofundar-se no que não é de vossa conta! Tenham fé no que entendem a aceitam, evitem as inovações e as fábulas subjetivas. Evitem fantoches de deuses! Tomem como modelo nossos ancestrais, deixem de lado as coisas novas. Evitemos os hábitos das pessoas comuns que se fazem cegas diante da vida e que se prendem as religiões mundanas e aceitam o mundo, simplesmente. O nosso caminho é só nosso, mas não é para todos. É preciso sabedoria. Qualquer um que tentar elevar-se acima das alturas da nossa compreensão, que pisar nos seus irmãos de batalha, perderá a dignidade e será recompensado com coisas perturbadoras. Não vão conseguir chegar ao nosso nível, pois vacilariam, oscilariam e por fim, cairiam.

Cortem as Cabeças!


Para que serve um Rei que inventa Rainhas e Rainhas que inventam coroas ?
Simpático Estúpido.

Anátemas

Não vim aqui para enxugar tuas lágrimas e nem esquentar-te em noites geladas. Eu não
Quero ouvir lamentos de ninguém, nem quero estender minha mão quando um abismo se abrir sob seus pés.
O ar continuará pútrido e o céu irá continuar cinzento.
Não vim agraciar o teu jardim e nem colorir a tua vida.
Eu sou somente mais uma que chega e que vai. Minha existência cheia de malefícios me orgulha. Eu não sou sinônimo de bondade. Sou apenas uma presença que vai te jogar na face as tuas vergonhas e as minhas, que traz o peso do remorso e que não deixa a ferida cicatrizar. Uma pequena mancha de ácido corrosivo, uma caixa de explosivos.
Vim de uma mãe estéril, vim apodrecida.
Minha alma é o açoite de tudo que é romântico, sou carrasca. Posso queimar-te se ousar chegar muito perto e expelir fagulhas na tua felicidade que se alastrará como um fogo-fátuo se alimentando de folhas secas. Meu toque fará gangrenas, meu olhar te entristecerá, porém, nada lhe dirá. Fique longe da minha língua, corra dos meus carinhos, pois não passam de ferrões envenenados. Quando a tua estrada estiver arruinada, tuas pontes destruídas e vosso mundo mais parecer penoso demais para se continuar nele, aventura-te nas minhas marés, nas minhas ondas, nas minhas ressacas. Se não tiver medo, afronta com ímpeto meu rosto cancerígeno. Tua estrela te trouxe até mim, tua estrela é tua traidora. Agora agüente meu veneno, ele é doce e inebriante e calmo. O efeito será ligeiro. Acaricie com graça esta bomba relógio, espere...
Amores matarão.

O olho que tudo vê / Die alles sehend Auge


Eu vou estar bem aqui quando houver somente pó.
Eu vou estar bem aqui quando irmãos matarem irmãos.
Eu vou estar bem aqui quando o grito desesperado das mulheres ecoar mais alto que os urros e brados de seus maridos guerreiros.
Eu não fraquejarei quando o ar ficar denso, sulfúrico, cortante.
E quando todos me virarem a face, eu continuarei aqui.
E quando você se sentir enjoado somente de pensar na minha presença, não adiantará porque eu vou continuar, bem aqui.
Eu vou estar aqui quando a almas caírem, quando inundarem o planeta com a vergonha.
Eu vou estar bem aqui quando o medo surgir nos olhos de todos.
Pode ser que você se sinta receoso em ouvir o que tenho a dizer.
Mas eu vou estar aqui.
Eu vou estar aqui principalmente quando os meus versos pesados machucarem as suas costas delicadas, macias e sangrentas.
Nem depois que minhas maldições destruírem tua alma eu vou embora. Eu vou estar aqui.
Meu veneno vai contaminar a tua desgraça de vida, a sua sombra não terá coragem de permanecer ao vosso lado, o vento vai deixar de sussurrar o meu nome.
Eu continuarei aqui.
Quando minha poesia secar e se decompor como um cadáver qualquer, eu vou estar bem aqui, eu vou resistir a tudo, até mesmo quando a minha voz ficar estranha aos meus ouvidos e eu começar a ter dúvidas se é minha voz realmente ou são chamados sinistros.
Mas não importa.
Vou ver nascimentos, mortes e filmes.
Vou conhecer tudo inteiramente.
Enquanto isso, eu permaneço aqui, plantada ao chão
Enraizada como árvore..
Estéril.

Tristan e Isolde


... Entre ses bras tient la reïne. Bien cuidoient estre a seor. Sorvient i par estrage eor. Li rois, que li nains i amene. Prendre les cuidoit a l'ovraine,
Mès, merci Deu, bien demorerent. Qant aus endormis les troverent. Li rois les voit, au naim a dit: "Atendés moi chi un petit, En cel palais la sus irai,De mes barons i amerrai: Verront com les avon trovez. Ardoir les frai, qant ert pruvé." Tristan s'esvella a itant, Voit le roi, mès ne fait senblant,Car el palès va il son pas.
Tristran se dreche et dit: "A! las! Amie Yseut, car esvelliez: Par engien somes agaitiez. Li rois a veu qu'avon fait;Au palais a ses homes vait;Fra nos, s'il puet, ensenble prendre,Par jugement ardoir en cendre. Je m'en voil aler, bele amie. Vos n'avez garde de la vie,Car ne porez estre provee
... Fuïr deport et querre eschil, Guerpir joie, siovre peril. Tel duel ai por la departie. Ja n'avrai hait jor de ma vie. Ma doce dame, je vos pri; Ne me metés mie en obli: En loig de vos autant m'amez. Comme vos de près fait avez. Je n'i os, dame, plus atendre: Or me baisiés au congie prendre." De li baisier Yseut demore; Entent les dis et voit qu'il plore; Lerment si oil, du cuer sospire: Tendrement dit: "Amis, bel sire, Bien vos doit membrer de cest jor. Que partistes a tel dolor. Tel paine ai de la desevranche, Ains mais ne sui que fu pesanche. Ja n'avrai mais, amis, deport,
Qant j'ai perdu vostre confort, Si grant pitié, ne tel tendrour. Qant doi partir de vostre amor; Nos cors partir ore convient, Mais l'amor ne partira nient.
Nequedent cest anel pernés: Por m'amor, amis, le gardés... =)

Gewalt


Um após o outro, eles não vão parar em momento algum. Seguindo o compasso de um relógio sinistro nos segundos perfeitos, os corpos atingem o chão com um baque ensurdecedor. Alguns trovões viajando em velocidade mortífera, negros anjos trazem desafortúnios. Dancemos todos! Em um giro de alegria que não anima mais, apenas acerta ceifadas sem piedade. Fantasmas caricatos, cheios de barbárie imundam as ruas das crianças que não cresceram, das moças que não amaram, da vida não viveram. Sujam tudo com marca podre da vergonha pura. Carreguam o peso da violência! As mãos impregnadas de sangue inocente, a inocência perdida. Não tem redenção. Não depois que as armas foram disparadas e o exército segue em marcha assombrosa...



Ohne Erlösung. Nicht nach, dass die Waffen wurden gefeuert und die Armee März in bar erstaunlich ...

Sic transit gloria mundi



Palavras, meu exílio. Eterna fuga consciente, gloriosa forma de escape, cheias de brilhos e fantasias. Um letra, uma máscara. Uma palavra, uma alma. Uma frase, uma vida. Cada ponto, uma fórmula. Cada linha, uma volição. Cada parágrafo, uma forma incomum que assumo, traços típicos estranhos que empresto, me escondo atrás das páginas empoeiradas, procuro ali o que não tenho. Procuro em meio a capas volumosas, o que não sou; agora, sou Isolda. Sou Medéia. Sou Minerva. Aqui está o meu escudo. Quem me dera ser feiticeira de palavras. Artífice artista. Poetisa. Quem me dera se pudesse modificar e transformar resenhas em magias, rabiscos em fantasia. Palavras. A glória do Mundo.

Pathos


Evito o caminho do pathos, é porque nunca soube lidar com essa vibração humana. Corro a menor aparição de carinho, enquanto ergo minha fortaleza muda. Concedo-me veementemente a propriedade do isolamento muitas vezes assistido, e me agrada o sabor cítrico da santa INDIFERENÇA. Por várias vezes experimentei um veneno célere, quase letal, tão vermelho quanto o amor, e ainda cuido das seqüelas do meu antídoto natural. Viro o rosto diante das chamas das emoções, pois não vou me atrever a tocar nesse fogo mórbido. Observo, mais além, impossível brilho das pedras preciosas tão procuradas. Belezas esculpidas por Vênus, designadas ao prazer de outrem. Sim, sou submissa a gravidade do conformismo, presa numa câmara de mediocridade, possuidora desse dom tão lindo da empatia. Não, minhas mãos velozes não suportam o calores intensos quase divinos, não ouso a idolatrar tão beleza virginal.E lá, na caverna escura e altamente fria, encontro paz.

Minerva


Sou Minerva e todo aquele que ousar tocar o meu Sol ah de se queimar.


"O que uma lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados?
Respondo que o oceano sabe.
Por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
Quem as algas apertam em teus braços?, perguntas mais firme que uma hora e um mar certos?
Eu sei perguntas sobre a presa branca do narval e eu respondo contando como o unicórnio do mar, arpado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto: que a vida, em seus estojos de jóias, é infinita como a areia incontável, pura; e o tempo, entre uvas cor de sangue tornou a pedra lisa encheu a água-viva de luz, desfez o seu nó, soltou seus fios musicais de uma cornicópia feita de infinita madrepérola.
Sou só uma rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja. Caminho como tu, investigando as estrelas sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento."

Nossa vida de Édipo




Édipo , homem do saber que viveu entre episteme (conhecimento) e doxa (faculdade que cria reflexões)
No mito, percebemos que na caverna o mundo dele é perfeito. Édipo domou a episteme quando decifrou o enigma da Esfinge de Tebas.
Édipo reconhece o valor das coisas e tem poder sobre as mesmas por viver em seu universo sensível.
O “Ser” dele é como Parmênides apresentou: é um mundo de aparências, de ilusões, falácias. Aquilo que como verdadeiro se vê, falso é.
A existência que o engana sempre o coloca á prova, vitórias passageiras. É o mal de Heráclito.
Édipo, somos todos nós aqui, quando não olhamos o mundo como ele é realmente. Nossa essência caça nas religiões, nas ciências a nossa existência, algo que nossa razão é incapaz de encontrar. E a ética? É sempre regulada pelos sistemas de idéias. Somos mais Édipos ainda quando vemos apenas o que nos é terno, sensível aos olhos, mas fazemos questão de sermos cegos naquilo que verdadeiramente nos é essencial. Sofremos, sim, mas porque não nos conhecemos, não sabemos quem somos nós e de que raio de lugar nós viemos. Fazemos como Édipo, trocamos os nossos ideais e idéias
por aquilo que conforta o nosso ser. Ocupamos a vida em resolver problemas fúteis e nos sentimos como heróis, como Édipo.
Como nossa alma sempre é ferida, herdamos dele, a culpa. Mas antes da culpa, vem a ferida que pode ter nomes como alienação e recalcamento. Vamos nós nos apoiar em nossa 3° perna, que pode se chamar vaidade para alguns e medo para outros. Dessa forma, pensamos que estamos salvando a nossa Pólis, exercendo nossos direitos como cidadãos, mas dali um tempinho a Pólis está em perigo novamente e assim vai...
Até que um belo dia, queremos ver o que está oculto e saímos da caverna para buscar a verdade da nossa essência. Eu vou, você poderá ir, alguns não irão, mas a caça é sempre árdua. Não podemos nos confortar com a dúvida pois já deixamos a caverna, só resta a certeza. Também não haverá recompensas nem premiações, somente realidade. Muitos dos que saíram da caverna vão querer voltar para contar as novidades como Zoroastro retornou, outros irão dizer que era tudo muito louco, cara! outros nem vão acreditar, e como o herói Nietzsche, nosso destino será a solidão. Assim funciona a Filosofia, solitária em tudo que ela tem de mais democrático: A possibilidade de cada ser, ser o herói de si mesmo.
Édipo finalmente encontrou-se, viu a sua essência real, absoluta, descobriu de que raio de lugar veio e escolheu o seu fim.
E vocês dirão que isto é Filosofia, e eu responderei que isto é o tudo, que Filosofia é o que ah, companheiro! Quem disse que não ? =)

" Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem de fazê-lo depois de velho , porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde de espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou,é como se dissesse que ainda não chegou ou já passou a hora de ser Feliz " Epicuro


Um de meus desenhos, Der Meister Ludwig Van Beethoven.

Penitência

Ah, e meu sufrágio afunda na lama!Onde penso que vou com minhas pernas fracas? Não, vacilar nunca, cavalheiro, os senhores estão esfomeados. E a fé, falhou ? Cair de joelhos então, para quê ?, curvar-se na Terra, gritar por piedade ? Não. Nego sim. Nego tudo aos profetas de extermínio. Pague os pecados, bom cavalheiro, pague o preço pelo que não cometeu.

Perdeu-se


A culpa não foi minha. Diabos podres de enxofre, arbustos malcheirosos dos planos mais baixos. Obelisco do descontrole. Ai de todos os deuses, que sua provação não seja de tão pesado vínculo. Falta ar, falta fôlego, falta pose e paciência, falta força e coragem, falta ignorância, ainda que seja a ignorante. Falta poesia, a beleza das rimas... Mas eu vou reencontrar minhas noites de cristal...

Ativando


Esqueci-me deste Blog, aliás, não tenho tido muito tempo para devaneios ultimamente.."A consciência do dever me persegue", enfim...
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Vadia, vagabunda, mentirosa jocosa, monstruosidade rancorosa de vaidade. Doenças. Estéticas inútil, dispensáveis, inúteis, revogáveis. Perde a pose, disfarça. Vadia, vagabunda, mentirosa..

Coitada da Rainha. Rainha, curinga vivente no frio invernal, de irresponsabilidade exagerada, outonos artificiais através dos tempos, era de nostalgias, erros grosseiros de grosseiros erros. Buscas bobas. Rei, armadura, espada, curinga. Coitado do Rei. O Rei morreu, viva o Rei! Que rei? Onde foi que errei? Vida longa bradarei.

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Qual é o objetivo? Presunçoso alívio, perda do foco. Culpa minha, afoita tola afoita. Sim, errei. Ah rei, meu rei, meu cavaleiro. Falhei. Fracassei. Levanto-me. Levantarei.

Personalidade INTP

Segundo um teste realizado, meu tipo de personalidade se enquadra á INTP - Introverted Intuitive Thinking Perceiving - Introversão, intuição, pensamento, percepção.

Inspiira.org

INTP


Seu modo principal de viver é focado internamente, lidando com eventos de maneira racional e lógica. Seu modo secundário é exteriorizado, através do qual você absorve fatos primariamente através de sua intuição.

Você vive num mundo de possibilidades teóricas. Você vê tudo em termos de como essas coisas podem ser melhoradas, ou em como podem ser transformadas. Você passa a maior parte do seu tempo dentro de sua própria mente, fazendo uso da sua grande capacidade de analisar problemas complexos e de identificar padrões que se repetem, criando explicações lógicas para eles. Você busca a clareza em tudo, e é voltado para a construção de conhecimento. Você é o típico “professor lunático”, que valoriza muito a inteligência e a habilidade de aplicar lógica a teorias para encontrar soluções para os mais diversos problemas. Você é tipicamente tão voltado para transformar problemas em explicações lógicas que passa muito tempo vivendo dentro de sua mente e pode não colocar muita importância no mundo exterior. Sua inclinação natural a transformar teorias em compreensão concreta pode se tornar um sentimento de responsabilidade pessoal de resolver problemas teóricos e de ajudar a sociedade a se mover em direção a um nível mais elevado de conhecimento e de auto-compreensão.

Você valoriza o conhecimento acima de tudo. Sua mente está constantemente trabalhando direcionada a gerar novas teorias ou a comprovar ou a derrubar teorias existentes. Você aborda problemas e teorias ao mesmo tempo com entusiasmo e ceticismo, ignorando as regras e opiniões existentes, e definindo sua própria abordagem para a solução. Você busca por padrões e por explicações lógicas para quaisquer coisas que te interesse. Em termos gerais, você é uma pessoa um tanto genial e capaz de ser objetivamente crítico em suas análises. Você adora novas idéias, e fica muito empolgado com conceitos e com teorias abstratas, obtendo muito prazer em discutir esses conceitos com outras pessoas. Você pode parecer “com a cabeça nas nuvens”, alienado e distante dos outros, pois gasta muito de seu tempo dentro de sua mente, pensando sobre teorias de como as coisas funcionam. Você odeia trabalhos rotineiros e prefere muito mais construir soluções teóricas complexas, deixando a parte de implementação dos sistemas para outras pessoas conduzirem. Você é intensamente interessado em teorias, e gasta, sem problema algum, muito tempo e energia para encontrar a solução para um problema que tenha intrigado seu intelecto.

Você não gosta de liderar nem de controlar as pessoas; é muito tolerante e flexível na maioria das situações, a não ser que uma de suas fortes crenças seja violada ou desafiada, em cujo caso você adotará uma postura bastante rígida.

Você tende a ser bastante tímido quando conhece novas pessoas, mas por outro lado, é muito autoconfiante e gregário quando junto a pessoas que você conhece bem, ou quando discute teorias que você compreende em total plenitude.

Você não compreende nem valoriza decisões tomadas com base em subjetividades pessoais e sentimentais. Você luta constantemente para chegar a conclusões lógicas para problemas e não entende a importância ou a relevância da aplicação de considerações subjetivas e emocionais às decisões. Por essa razão você nem sempre percebe o que as outras pessoas estão sentindo, e nem está naturalmente equipado para atender às necessidades emocionais delas.

Você pode ter um problema com auto-engrandecimento e com rebeldia social que pode vir a interferir no seu potencial criativo. Sendo que o seu Sentimento é a função menos desenvolvida, você pode ter dificuldade em dar o carinho e o apoio que é sempre necessário nas relações íntimas. Assim, se você não perceber o valor em ser cuidadoso com os sentimentos das pessoas, você pode se tornar excessivamente crítico e sarcástico para com elas. Se você não for capaz de encontrar um espaço nesse mundo onde você possa fazer uso de suas fortes habilidades, você pode acabar se tornando uma pessoa extremamente pessimista e cínica. Se você também não desenvolver seu lado Sensorial/concreto o suficiente, você se encontrará “desligado” demais do seu ambiente, e demonstrará essas fraquezas na execução de tarefas do dia-a-dia, como pagar as contas ou se vestir apropriadamente.

Para você é extremamente importante que as idéias e que os fatos sejam expressos de uma maneira correta, clara e consistente. Talvez isso seja porque você prefere se expressar através do que você acredita ser verdades absolutas. Às vezes sua compreensão já completa de uma idéia não é facilmente compreendida pelos outros, e não é normal que você tente reorganizar melhor o que você falou para explicá-la de uma maneira que os outros compreendam. Você pode também ter uma tendência a abandonar um projeto assim que você entenda seu funcionamento, pulando para a próxima idéia. É essencial que você dê importância a explicar as teorias que você desenvolve através de maneiras compreensíveis. Afinal, uma descoberta sensacional de nada significa se você é a única pessoa que a compreende.

Você é uma pessoa bastante independente, original, e nada convencional. Não é provável que você coloque muito valor em valores convencionais como os de querer ser bem aceito por todos ou por querer segurança em todos os aspectos da sua vida. Você possui um caráter complexo, e tem uma tendência a ser inquieto e temperamental. Fortemente engenhoso, possui padrões de pensamento que o permitem analisar idéias de através de novas maneiras. Conseqüentemente, diversas mudanças relacionadas ao pensamento científico mundial foram feitas por pessoas como você.

Você se encontra no seu meio ideal quando pode trabalhar com suas teorias de maneira independente, num ambiente que ofereça apoio ao seu gênio criativo e até mesmo excêntrico. Se esse for o caso, você poderá alcançar feitos memoráveis. Pessoas como você são pioneiras, contribuindo com novos pensamentos e idéias para a nossa sociedade.

Sinfonias


O regente desta sinfônia funesta, soturna é o próprio Pêndulo da Vida, que dança num compasso sem harmonia, dissonante ante qualquer beleza. Em cada badalada, um soluço inconstante, um grito de (des)esperança voluntária, um choramingo sem qualquer piedade. A cada onda, um abalo nos mais profundos alicerces dessa alma já em pedaços, tão esgotada de tanto juntar seus trapos e tão cansada de olhar para frente. Não há, nessa Orquestra terrível, espaço para que a tranqüilidade ignorante escoa. Não cultivam felicidade, estes seres vorazes, corcundas arbitrários de uma catedral agonizante, moribunda, assustadora e de uma frieza concreta. Deito-me à sua sombra, embalada pelo canto exaltado dessa melodia de desassossego, reclusa num pesadelo de voz grave e aspecto feio, velho. E de repente, bem no fundo, gritam com horror, prestes a explodir, e eu nem sei bem o que é. E na tentativa de desvendar, esta música segue, imponente e majestosa, sem me deixar fechar os olhos.


Na densa nuvem de poeira, voa todos os sonhos inacabados, livres das cobranças egoístas da esperança. Naquela vilania inconseqüente sela-se todos os pensamentos brilhantes e faceiros, longe de sombras escuras, aquelas que fazem gaguejar os adultos, que fazem blasfemar os conformados, que fazem gloriar-se os céticos, cegos com a fantasia própria. Bastou o toque da inocência ah tantos anos esquecida, para que um universo inteiro brotasse num piscar de olhos, em meio uma entusiasmada melodia, doce e sossegada. Compromissos e repressões não valem nada e no fim, nada mais vai significar coisa alguma e nada irá fazer sentido nem nos fará sentir. É como um fluxo contínuo, uma onda de palavras invisíveis e absortas. Uma emoção a cada toque e uma vida a cada palavra. Uma arca de tesouros escondido no fundo da alma de cada um de nós. Um pequeno mundo esquecido nos contornos de mãos que aparentam sofrimento, típica ação do tempo, que faz desmontar o sorriso do rosto, que faz esmaecer o vigor do músculo, que nos faz esquecer as brincadeiras, os gracejos virginais. E neste mundo, terra dos poetas decadentes, de crianças, sábios e de loucos, mora um pedaço de felicidade vindo na carona de um cometa, e que só irá brilhar para os puros, que não deixaram a ignorância tomar conta da alma Aqui continuo eu, numa conversa descontraída com Minerva que sempre aparece para nos visitar, me ensinando coisas da vida, e que também aprende comigo, rindo das coisas parvas e bobas ditas por mim, porque me faz feliz ver um sorriso qualquer, sem que para isso eu tenha que procurar palavras difíceis, misteriosas e cheias de arrogância somente para impressionar alguns na tentativa de esconder um egoísmo e ego descomunal. Um dia, nada fará sentido mesmo...

Horrorshow


“ (...)Então, irmãos, começou. Ah, bênção, bênção dos Céus! Fiquei deitado, completamente imóvel, olhando pro teto, o gúliver sobre as mãos no travesseiro, os glazes fechados, a rote aberta em beatitude, esluchando o esguicho de lindos sons. Ah, era o belo e a beleza feitos carne. Os trombones mastigavam ouro debaixo da minha cama, por detrás do meu gúliver, os trompetes lançavam chamas de prata em três direções e lá, perto da porta, os tímpanos rolavam por dentro das minhas tripas e tornavam a sair, mastigados como um torrão de trovão. Foi então, como um pássaro do mais raro tecido de metal celeste, ou como vinho prateado escorrendo numa espaçonave, a gravidade transformada agora em absurdo, veio o solo de violino, por sobre todas as outras cordas, e essas cordas eram como que uma gaiola de seda em volta da minha cama. Depois, a flauta e o oboé perfuraram, como se fossem vermes de platina, o espesso, espesso torrão de ouro e prata. Pai e mãe no quarto ao lado, já tinham aprendido a não bater na parede se queixando do que chamavam de barulho. Eu tinha ensinado a eles. Agora eles tomavam pílulas pra dormir. Talvez sabendo da alegria que eu sentia com a minha música noturna, eles já deviam ter tomado. Enquanto eu esluchava, meus glazes bem apertados pra trancar do lado de dentro a beatitude que era melhor do que qualquer ou Deus de sintemesque, eu via imagens tão lindas. Tinha veques e ptitsas, tanto jovens quanto estarres, caídos no chão, gritando por misericórdia, e eu gargalhando com a rote inteira toltchocando os litsos deles com meu coturno. E tinha devótchecas rasgadas e gritando contra as paredes e eu metendo nelas e, realmente, quando a música, que tinha só um movimento, chegou ao topo da sua torre mais alta, então eu gozei e esporrei e gritei aaaaaaaahhhhh de beatitude. E a linda música deslizou para o seu término cintilante. Depois disso, eu ouvi um lindo Mozart, e vi novas imagens de litsos diferentes sendo jogados ao chão e esmagados pela minha bota, e foi depois disso que eu achei que devia ouvir mais um último disco, antes de cair no mundo, e eu queria alguma coisa estarre, forte e muito firme, e foi J. S. Bach que eu ouvi, o Concerto de Brandenhurgo só pra cordas médias e graves.

Muito horrorshow caros droogs.

No outro dia, acordei ás 8 horas em ponto. Qual vai ser o programa, hein ? (...)”



É inútil tentar me desfazer deste nevoeiro traiçoeira que me cega meus olhos. Nem pelo toque de Minerva, nem pelos conselhos de Delfos eu poderia ser tirada desse labirinto. A chama invisível jamais cessa de fervilhar as minhas dúvidas. Sempre que fecho os olhos, encontro-me assim, como em um monumento de Dédalo, perdido dos fios da lã. E se os abro, a corrente de lembranças afoga a tênue linha de sanidade que ressoa dentro da minha cabeça. Acabo por cair involuntáriamente na armadilha dos jogos sórdidos, recitando lamentações do meu infortúnio sob uma máscara de hipócrita. Em verdade digo a todos, alimento-me com uma voracidade incontrolável desse desespero doce. Fujo a todos os olhares e mato minha sede por inconstancia.

Criança


Eu quero ser criança. Ser criança de corpo e alma, brincar e imaginar um mundo só meu. Quero poder rir com inocentemente, poder queimar com o desejo da curiosidade. Queria ser livre de pessoas, livre da ambição e das responsabilidades, livre do peso da vida. Quero ser criança, com a consciência de quem sente regozijo por ela mesma, quero ter o pecado da ignorância, e a benção de uma alma virginal. Queria o suspiro puro e a voz de humildade infantil. Quero, por tudo, minha alma repleta de poesia que faz músicas, de novidades, de fantasias, de brilhos. Quero de volta o meu tesouro, a minha contemplação de um mundo bucólico, simples. A suspeita fugaz de momentos que não duram mais do que cantigas e amores passageiros. Quero mergulhar no tempo que já passou, nesses aureos idos de uma outra vida. Quero, por toda a poesia, música e beleza, voltar a ser criança.

Fardo


E meu valor moral caiu aos pedaços. Não resistiu a tentação da apatia. Meus princípios tombam frente a prova de fogo e a inércia é forte demais para que eu movimente um dedo sequer. A deterioração é inevitável. Somem as cores vivas que pavimentam a alma; cada pedra é assolada pela rotina, ferida pela corrosão egoísta. No movimento que não cessa, o tempo urge. Não sobram trocados para a música solitária e funesta do observador. Tranquilizo-me, apenas, nessa auto-piedade; esperar o sofrimento é simples. Quem pode enfrentar, enfim, a certeza? Ai de mim, que me agarro a onipotência , como se o espírito estivesse largado em meio a um jogo de cartas. Isso é o que dá, apegar-se a deuses geniosos e amores platônicos. O fardo é pesado sim, porque assim posso reclamar por carregá-lo.

Cigarros


Tudo que ela fazia o tempo todo era exalar fumaça nauseante, enquanto aparentava uma nojenta cara de desdém. Nenhuma das trágicas e emocionadas palavras que ele soluçava pareciam susrtir o menor efeito. Era como se ele estivesse passando mal, vomitando qualquer bobagem sobre a torta de maçã. A cada sílaba trêmula, ele parecia ainda mais idiota, patético e ela, soltava ainda mais fumaça, feito uma chaminé de concreto, fria, imponente e voraz. Ele, vez ou outra, tentava manter o ritmo no diálogo, escondendo talvez o que restou da sua própria dignidade. Ela o encarava, decepcionada. Aqueles olhos azuis não perdoavam; pareciam dois facões que rasgava aos poucos, tornando a gangrena ainda mais dolorida e horrível. Os cabelos escuros faziam o contraste entre os dois. Ela, paciente mas instável . Ele, benévolo mas inseguro. A conversa não passava de um desperdício de frases. Um gole de café, um copo de vinho e fumaça. Uma bagunça de personalidade. E a relação sempre foi assim. Tentar encontrar algum sentido é em vão. Ele se levanta e diz não voltar mais, na esperança de causar alguma reação inesperada. Ela suspira, mais calma. Toma um gole do café e acende mais um cigarro. Cafés esfumaçados. Bela combinação.


Não existe folga para o louco. Não existe silêncio enquanto ecoa este grito cacofônico. Não há paz na trilha de sombras malditas, que se prolongam como uma capa horripilante que mata e planta a semente da desolação. O peso da aflição é maior do que a da própria vida. A ausência da simpatia é como uma sanguessuga de espíritos, vórtex, nonsense sulfúrica, seca as mais tímidas sementes da esperança. A falta de sossego; a inquietação que persevera é imbatível, perpétua. O nimbo do desespero é naturalmente incorporado, escuro contagioso que emana a quebra da alma. Fracassada, metafísico ao tempo. Dores do passado, presente e futuro.

Disforme


Selecionando palavras com cuidado, temerosa a cada passo dado. O chão é feito de vidro, escorrega e machuca. É como um claustro misantrópico que me cobre, feito um manto de insensibilidade. Imagens cinzentas vão passando... falta luz nesta trilha que cerca. Algemas colocadas por mim mesma. Se grito por liberdade, nada poderia ecoar mais falso. Aqui dentro é mais seguro, longe desse assustador mundo de afetos. A música é lenta, o tempo custa a passar. Minha película perturbadora, de sangue e flores... Aproximam-se apenas as sombras do passado e falo num dialeto que nunca existiu e não vai existir para os outros. Tenho aqui meus companheiros sem forma definida e sem ambições, fardados com a própria (in)existência. Sinto saudade do que não vi e da nostalgia do que não vivi. Desejo beijar e abraçar este sonho platônico, de formas que confundem. E debaixo da minha árvore sem flores e sem folhas , eu repouso. Gargalho aos prantos. Olho passar as coisas que não passam, cumprimento quem não está ali, converso com os ventos matinais e noturnos que não batem. Vou levando assim, caindo na armadilha...

Minerva


...Meu paradoxo ou contra-senso não passa de uma Minerva às avessas, uma velha divindade cega, orgulhosa, arrogante, juíza e criminosa. A balança pende para o lado da espada, justiça, apenas a minha própria, auto-imposta, austera, rigorosa, quase infalível. Ai destes pensamentos impuros, algozes vorazes, abutres famintos em volta de uma podridão. O açoite que se impõe é feito de verdades e mentiras. Mas a consciência do dever me persegue. E, neste estado marginal, nesta vilania como um objeto abominável, encontro a arte. Na dúvida e na incerteza; só ali tenho a poesia que faz a vida. Prometo tornar o belo questionável, e o impuro virgem. Tento transformar o legível no enigmático, e todo paradoxo numa melodia harmoniosa de (des) razão. E que cada verso seja entoado no canto, e que cada canto seja silenciado num eco de inocência. O peso de minhas verdades será tão leve quanto a beleza da mentira. E que todos os ouvidos sejam violentados com minhas maldições e anátemas, e que a surdez seja acariciada com a vibração dos meus acordes em junção ás minhas odes. E que cada pedra da minha obra sirva como uma agulha no espírito dogmático de céticos e cegos. Pago o preço de um mundo de ponta-cabeça, voaria por todo o Universo, colheria cada estrela e rezaria para cada anjo dos céus se este fosse meu preço. Moveria a montanha para que, com potência e orgulho, meu grito, meu desabafo, meu desespero, desprezo e minha poesia fosse, em toda sua integridade, a mais pura arqueologia da minha alma. Não me importo de pagar também o alto preço da minha ignorância...