Cigarros


Tudo que ela fazia o tempo todo era exalar fumaça nauseante, enquanto aparentava uma nojenta cara de desdém. Nenhuma das trágicas e emocionadas palavras que ele soluçava pareciam susrtir o menor efeito. Era como se ele estivesse passando mal, vomitando qualquer bobagem sobre a torta de maçã. A cada sílaba trêmula, ele parecia ainda mais idiota, patético e ela, soltava ainda mais fumaça, feito uma chaminé de concreto, fria, imponente e voraz. Ele, vez ou outra, tentava manter o ritmo no diálogo, escondendo talvez o que restou da sua própria dignidade. Ela o encarava, decepcionada. Aqueles olhos azuis não perdoavam; pareciam dois facões que rasgava aos poucos, tornando a gangrena ainda mais dolorida e horrível. Os cabelos escuros faziam o contraste entre os dois. Ela, paciente mas instável . Ele, benévolo mas inseguro. A conversa não passava de um desperdício de frases. Um gole de café, um copo de vinho e fumaça. Uma bagunça de personalidade. E a relação sempre foi assim. Tentar encontrar algum sentido é em vão. Ele se levanta e diz não voltar mais, na esperança de causar alguma reação inesperada. Ela suspira, mais calma. Toma um gole do café e acende mais um cigarro. Cafés esfumaçados. Bela combinação.