Minerva


...Meu paradoxo ou contra-senso não passa de uma Minerva às avessas, uma velha divindade cega, orgulhosa, arrogante, juíza e criminosa. A balança pende para o lado da espada, justiça, apenas a minha própria, auto-imposta, austera, rigorosa, quase infalível. Ai destes pensamentos impuros, algozes vorazes, abutres famintos em volta de uma podridão. O açoite que se impõe é feito de verdades e mentiras. Mas a consciência do dever me persegue. E, neste estado marginal, nesta vilania como um objeto abominável, encontro a arte. Na dúvida e na incerteza; só ali tenho a poesia que faz a vida. Prometo tornar o belo questionável, e o impuro virgem. Tento transformar o legível no enigmático, e todo paradoxo numa melodia harmoniosa de (des) razão. E que cada verso seja entoado no canto, e que cada canto seja silenciado num eco de inocência. O peso de minhas verdades será tão leve quanto a beleza da mentira. E que todos os ouvidos sejam violentados com minhas maldições e anátemas, e que a surdez seja acariciada com a vibração dos meus acordes em junção ás minhas odes. E que cada pedra da minha obra sirva como uma agulha no espírito dogmático de céticos e cegos. Pago o preço de um mundo de ponta-cabeça, voaria por todo o Universo, colheria cada estrela e rezaria para cada anjo dos céus se este fosse meu preço. Moveria a montanha para que, com potência e orgulho, meu grito, meu desabafo, meu desespero, desprezo e minha poesia fosse, em toda sua integridade, a mais pura arqueologia da minha alma. Não me importo de pagar também o alto preço da minha ignorância...