Estação...

E junto com a primavera, nascem os amores e carinhos que colorem o céu com um azul jovial que ri como uma criança em sua inocência. O vento não passava de um mimo para os namorados, inebriados na sua riqueza em primavera romanesca, respiram juras de amor eterno, transcendentes. A existência de ambos era calorosa, os dois agora, apenas um, em uníssono, sem vozes sepultais ou pensamentos de qualquer índole, basta, somente, que se troquem os ares e que as árvores voltem para o seu claustro natural, para que as promessas, tão copiosas e duradouras, caiam como folhas exaustas levadas por um vento outonal, caídas do pé das Ilusões. O azul do céu se desbotava e gargalhava de forma funérea, o frio era boreal, como um choro angelical que castigava, colore a vegetação idílica de branco, um branco indiferente e gelado, tirando a cor de cada traço daquele amor vermelho pulsante, agora pequeno e distante como uma lembrança indesejada. Triste fraqueza humana. Fome, vontades e desejos, a sede de um beijo...Não se pode esperar a época do degelo, mal sabem, pobre casal, que tímidas promessas já se formam sob o gelo, para o início de uma nova primavera...

Esqueletos Sociais ?


O hábito rotineiro era monocromático, contaminado por fuligem e pouco caso. As trilhas eram (des)coloridas de antipáticos tons cinzentos, sob um teto bravo, repleto de tormentos e empobrecimento, planava lá no alto uma onipresente aparição de consciência, desvelando o caos e cochichando, aos gritos cacofônicos, que nada daquilo ali fazia sentido, era apenas uma seqüencia de acasos frios sem propósitos aconchegantes.
Observando ao meu redor, vejo que não ah ninguém nem nada ali para mim. Meus passos estavam sendo guiados para a inexistência.
Os arranha-céus escuros, cresciam quase que infinitamente e escondiam o cume lá no alto mais alto, sob as nuvens negras colossais, cumulus-nimbus noturnal. Em cada um destes milhões de prédios existem inúmeras janelas e atrás destas janelas existem espectros apreciando sua miséria, com vazios olhos tristes e pensamentos egoístas. Não passava aquilo tudo de uma simples edificação sem moral que engana sobre sua própria existência e que incoerentemente, acreditava em si mesma. As calçadas próximas aos arranha-céus retumbavam um grito sujo de escárnio, ecoando gozo e avacalhação, berrando pelos Deuses e pelas monstruosidades. As ruas tortuosas se encontravam sempre na mesma esquina do acaso, como velhos amigos que se encontram e vão ao cabaré mais próximo.
Algum significado até aqui ? Não... Vamos adiante...Em frente encontro a ética, a moral e o código, juntamente com todo esse tipo de sujeira de leis e religiões de povos doidos, oposições anarquistas de loucos sábios, débeis sonhadores...tudo isso correndo por valas abertas, despejando-se nos bueiros de odor insuportável, misturando a dor da convivência social e o descaso...Faltam as cores alegres, faltam corajosos, falta humanidade. Quem foi que deixou as coisas chegarem a este ponto ? Alguma criança. Alguma criança que caiu no próprio conto e não ah ninguém para salvá-la.
Observo mais atentamente, que lugar é este afinal? Tudo ao redor convergia em um mesmo centro, um buraco esquecido da alma...E até a estátua perdeu sua imponência, vê ela ali, toda destruída sem braços e cabeça ? Pois é, monumento da inexistência...
Hoje, foi um dos dias raros. Dia de desparafusar a porta do meu universo e visitar a órbita alheia, voltei com a certeza de que vale somente minhas utopias pessoas e nada mais, e não é que falta vontade para/com o universo alheio, mas é que sobra apatia somente.

Dawn of a New Century!


Daqui do alto de minha Torre de Marfim, não vejo ninguém, além de ninfas e brumas fazendo suas cantorias e brincadeiras diárias. Minha voz aqui ecoa distante, de uma forma que só pode ser ouvida por um vento triste de um céu indiferente.
Leio poesias, profiro palavras sábias e bonitas, porém, são todas inaudíveis, já não fazem parte desta realidade. É como uma mentira que eu mesma criei, acreditei, para que, de certa forma, me sentisse confortável, cega, diante dessa tão maquiavélica realidade mundana. Se eu tento tocar este mundo, com um dedo que seja, tímido e medroso, um sopro de ar frio me desencoraja. Então daqui, só observo. Pessoas..Pessoas que passam por um falacioso profeta qualquer, vindo de qualquer ponto do fim do mundo e deixam-se levar por suas palavras jocosas, falsário que encanta a todos os humanos dali com uma mediocridade incrível assim como um serpente destila o seu veneno...E eu, por fim, caio na real. No meu real. Uma enrascada surreal que dói, mas é tentadora, absurdamente tentadora...Não existo e não deixo referências. Continuo ali, estática, contrita entre as regras e leis de uma vida normal e o caos dionisíaco. Resolvi então optar pela última opção e fazer do caos, o meu bálsamo, é sempre um excelente ponto de fuga para ignóbeis que adoram rondar meus espelhos, sujando de ignorância este vidro fino e delicado que me mantém afastada de coisas que desconheço, me mantém afastada desta coisa ridícula que chamam de vida. Observando mais atentamente, enchi-me de cólera descomunal por não compartilhar dessa juventude atual cheia de infantilidades e futilidades alcançadas somente pelos mais selvagens, impetuosos e imbecis heróis cotidianos, ridículos como só os humanos podem ser. Diante disso, o que me resta? O tudo! O universo está aqui na palma da minha mão, e, por mais que eu a feche, ele escorre por entre os dedos se fazendo poeira estelar de vidas de infinitas cores e odes...embriago-me nos meus pensamentos, tão insanos e insossos...tão perfeitos á minha ótica, axiomas vazios, monólogos da minha alma de virgem que jamais será violada por um feroz abutre qualquer. Fico assim, agarrada ao meu abstrato, enciumada, violenta, por vezes louca, esperando um diamante que jamais será desejado por ninguém, a não ser eu mesma. Alma virginal de águas embaraçadas e de safiras brilhantes que encontra carinho no seio das palavras e das filosofias e que me guiam para eternidade da minha existência em um tempo de nova Era.

Sono...


O firmamento não me parece mais tão firme, pois respinga seus horrores sobre mim.
Cada pingo, um meteoro gigantesco, fulminante em velocidade absurda pronto para colidir e destruir. Quem é que pode dormir em sossego se lá fora um leão faminto ruge enquanto cai uma tempestade atroz de lamúrias e obscenidades, fadadas pela ansiedade?
Uma nuvem de mágoas e anátemas vem se aproximando, ação do vento de desespero e terror fazendo a noite se prolongar ainda mais. O relógio ao lado da minha cabeceira se transforma em um brinquedo macabro, uma ceifadeira que se move ao compasso dos segundos, anunciando o lapso eterno, com exatidão, o minuto e a hora em que a vida terminará. Os lençóis da minha cama agora estão imundos, putrefatos, sujos com a vergonha, não escondem mais as infâmias espirituais, as aberrações da alma, o pecado original, agora são só um peso de condenação velada, carniçaria subjetivada. Meus olhos não piscam, não consigo mover as pálpebras, pois tenho que acompanhar as atrocidades dos falcões assassinos invisíveis, os hereges inexistentes que me perseguem imaginariamente, o sono por si, é só, presente de hecatombe. Fogueira da inquisição, desassossego eterno. Meu quarto, meu refúgio, palácio sinestésico. O terror do sono.

Novo Titã


E minha escuridão me pegou para sempre, não adianta Hécate retirar seu manto negro de cima de mim. Não reconheço mais rostos diante de meus olhos, ainda que fosse aclarada pelo raio de Zeus . Não sinto também o chão sob meus pés, mesmo que Ártemis se curvasse em minha frente. O céu sumiu, ninguém viu, nem mesmo Urano conseguiu o segurar com sua mente forte. O vento havia parado, e seria ineficaz até o mais forte dos sopros de Éolo. De que me adianta a centelha dos primórdios do Caos se não tenho inocência suficiente para caminhar sobre o Elísio destinado a nós, viventes? Todo o Olímpo não seria suficiente para me tirar desse péssimo êxtase natural, presente desde meu primeiro suspiro na realidade consciente. Hesíodo poderia cantar mil bravuras de Zeus e Apolo, Hércules e Ciclope, nada me comoveria e nem me removeria do estado de catarse em que meu pensamento se encontrava. O presente enviado por Hermes não teria utilidade nenhuma, e o amor de um Euro não tiraria de mim qualquer tipo simpatia. Não desejo o escudo de Minerva, nem a lança de Atena. Eros não vence tudo e as Ninfas não tem uma boa melodia para esta hora. Não sai do meu corpo o pessimismo, tão pouco o desejo ou a esperança. Não há nada que faça eu me locomover. Não existe outro brilho nos meus olhos a não ser o de um único desejo. Se minha alma incendiar, queimará com apenas uma chama. Ela brilha para o meu Cavalheiro, meu mais novo Titã, a quem, sob relíquias santificadas, jurei ser fiel, meu bravo cavalheiro, tão errante...

Poseidon


E por um decreto dos Deuses, o mar nos foi proibido. Os rochedos altos, as costas brilhantes com ondas de cristal que quebravam ao colidir-se com as rochas, agora não passa de um sonho distante para aqueles que ouviram sua histórias. A torre alva elevava- se lá ao sul, como um imenso astro de Marfim, esta será a luz de esperança nessa época tão gélida e tão tristonha de lamentações e sombras macabras.
Eu pergunto: Onde estão os heróis? Sim, eles, os altruístas que sacrificam-se por míseros sinais de luz ? E as riquezas que os piratas sempre vinham buscar ?
Clamei por um marinheiro. Sim, ele! De nobre linhagem, único de coragem. Pedi a ele que enfrentasse o gigantesco oceano traiçoeiro que tinha olhar penetrante, azul surreal....
Pedi que, como uma ave da realeza e paz, voasse até o seio da honestidade. Pisou descalçado na areia fina de uma pequena praia de lucidez. Nesse lugar, a tal da imortalidade nunca havia sido tão suja por homens simples de sangue forte.. Em um ato de bravura e empáfia, o marinheiro foi abraçado pelo Deus dos Mares...Foi concedido a ele uma proposta: Devolver-nos-ia nosso belo Mar se o marinheiro permanecesse de vigília durante toda a eternidade. Proposta aceita. A lua e ao Sol foi dado o espírito de astros imortais, protegendo assim todo o firmamento. Lá, além dos limites da existência, as sombras voavam já sem as correntes dos pecados. Dia e noite o marinheiro viajava, empunhando sua espada e sua bandeira, pronto para brigar com o frio e a morte, tendo na face o brilho dos Deuses, a luz da vida, estrela do coração do oceano.

Lúcido Pesadelo


Sonhos lúcidos. Tão vivos... Monocromos de silêncios gritantes. Quem foi que despejou a desgraça contando esta piada funérea? A confusão caótica jamais foi bela, quem ousou fantasiar essa realidade com um paradoxo árduo? Como uma criança, eu digo: Não quero mais brincar! Acenda-me a luz, por favor. O escuro está muito claro, de tão escuro, está claro! Acendam de uma vez! Eu nunca pedi para estar aqui, alma vivente em contrastes tão macabros...Não quero fazer parte das antíteses, não gosto de comer sobras e não gosto de ombrear o amor com ódio. Falsidades não mais. Não desejo as rosas bonitas e perfumadas e também não quero o sangue... Chegou a minha hora de rejeitar esse cinema sinistro de banquete surreal. Estou exausta de ouvir seu pio funesto, corvo metálico. Volta para a Estinfale, enquanto eu me refaço ao poucos e tomo ânimo para voltar a tranqüilidade. Sempre achei que isso tudo era um sonho, não mais. É difícil reconhecer um letargo... Pesadelos vivos que insistem em quebrar minhas noites de cristal.