Caía uma chuva fina. As pessoas se apressavam, levantando sobre a cabeça
o guarda-chuva aberto; de repente formava-se um tumulto na calçada. Os homens eram
amáveis, e passando perto de Tereza, levantaram o guarda-chuva mais alto para abrir-lhe espaço, mas as mulheres não se afastavam um milímetro. Olhavam em frente, com o rosto duro, cada uma esperando que a outra se confessasse fraca e capitulasse. O encontro dos guarda-chuvas era uma prova de força. No começo, Tereza se afastava, mas quando compreendeu que sua cortesia jamais era retribuída, seguiu o exemplo das outras, passando a empurrar com mais força o guarda-chuva. Muitas vezes seu guarda-chuva esbarrava violentamente num outro da frente, mas nunca se ouvia um pedido de desculpa. Em geral, ninguém abria a boca; duas ou três vezes,
porém, ouviu: "Puta!" ou "Merda!". Entre as mulheres armadas com guarda-chuva, havia jovens e mulheres mais velhas, mas as jovens estavam entre as combatentes mais intrépidas. Tereza lembrava-se dos dias da invasão. Mocinhas de minissaia passavam, e tornavam a passar, carregando a bandeira nacional na ponta de uma vara. Era um atentado ao pudor contra os soldados russos, forçados por muitos anos à abstinência sexual. Em Praga deviam imaginar que estavam num planeta inventado por mulheres incrivelmente elegantes, exibindo seu desprezo, empoleiradas em longas e bem torneadas pernas, como há cinco ou seis séculos não se viam em toda a Rússia.
Durante esses dias havia tirado inúmeras fotos dessas mulheres, tendo ao fundo tanques de guerra. Como as admirava então! E eram exatamente essas mesmas mulheres que via hoje, avançando em sua direção, rabugentas e vulgares. Em vez de bandeira, carregavam um guarda-chuva, mas carregavam-no com a mesma arrogância. Estavam dispostas a enfrentar com a mesma fúria um exército estrangeiro e o guarda-chuva que se recusava a dar passagem.

- Milan Kundera, Nesnesitelná lehkost bytí.

Filosofia


Inebrie tua glória, retumbe a majestade, grite ao ventos os fundamentos de vosso brado, ergue aos céus toda sua sabedoria. Por Clio, que todos os governantes curvem-se diante da Sabedoria do Tempo. Delfos passados, maestros regentes da vida que herdarão as belas artes, orem por todos nós. Da filha de Zeus, Minerva, fará brotar do ventre de Gaia a semente da mais exímia poesia fazendo nascer a mais belo lírio. Grita, mas grita em sussurro, faz levantar aqueles que caíram, com um sopro, que agora dediquem-se a Glória de suas narrativas. Que as infinitas páginas não sejam torturadas pelos pecados de profetas infames que não sentem o leve toque da mão feminina e pesada. Que os olhos daqueles que não acreditam na força da tua justiça sejam cegados pelo brilho da espada. Que sejam embebedados pelo néctar fatal todos aqueles que difamam e desafiam vossa sabedoria. Que sua beleza jamais contemplada, que move céus e terras e fazem dançar as estrelas, ofusque os perdidos e teimosos que insistem em desviar-se do caminho do Olimpo. Que os planetas continuem a girar ao redor do seio da Mãe no ritmo e no ciclo da vida. Que as palavras de todos aqueles que te seguem sejam abençoadas e que possamos carregar pela eternidade, toda a sabedoria de tuas verdades, suaves, inquietantes e por vezes, fulminantes. Alimentada sou eu, que de alma entrego-me a mais bela entre as belas, feliz aqueles que carregam as palavras da Filosofia.


E são as incertezas do caminho da vida que torna tudo tão interessante. Os ventos sopram errantes, diferente do costumeiro e repentinamente entoam uma canção nova e ainda mais bela como os arautos de Zephyros. Sem demais explicações, o alvo aqui não cabe a nenhuma palavra. Não posso deixar que minha inépcia poética macule em junção ás belas palavras que se erguem majestosamente ante os olhos. De onde surgiu e o que pretende, não sei, não me interessa, apenas a contemplação de tamanha arte é o suficiente para suprir minhas necessidades e desejos literários. Vejo aqui, vida demais para uma pequena alma, inconstante e néscia, não sei como devo me comportar. O que resta então? A gloriosa forma de escape. A Torre de Marfim, lá no alto, o universo platônico, meu mausoléu de honras e glórias. Suas paredes são feitas de sonhos interrompidos e desejos não saciados, esperanças mal colocadas como folhas que se perdem com o vento, e como deve ser, encontram o chão, estéril. Não deixo que as incertezas que assolem, não posso assustar-me agora. A face bela será a surpresa, o sentimento será finalmente gratificado, essa é única chance, uma meteórica estrela como esta é mais do que eu precisava para seguir sempre em frente. Com sorriso na face, a estrada árida, deserta e fria da vida se torna um espetáculo colorido e refulgente, a dura realidade já não amedronta. Não são nos leões que se escondem as grandes forças.