Disforme


Selecionando palavras com cuidado, temerosa a cada passo dado. O chão é feito de vidro, escorrega e machuca. É como um claustro misantrópico que me cobre, feito um manto de insensibilidade. Imagens cinzentas vão passando... falta luz nesta trilha que cerca. Algemas colocadas por mim mesma. Se grito por liberdade, nada poderia ecoar mais falso. Aqui dentro é mais seguro, longe desse assustador mundo de afetos. A música é lenta, o tempo custa a passar. Minha película perturbadora, de sangue e flores... Aproximam-se apenas as sombras do passado e falo num dialeto que nunca existiu e não vai existir para os outros. Tenho aqui meus companheiros sem forma definida e sem ambições, fardados com a própria (in)existência. Sinto saudade do que não vi e da nostalgia do que não vivi. Desejo beijar e abraçar este sonho platônico, de formas que confundem. E debaixo da minha árvore sem flores e sem folhas , eu repouso. Gargalho aos prantos. Olho passar as coisas que não passam, cumprimento quem não está ali, converso com os ventos matinais e noturnos que não batem. Vou levando assim, caindo na armadilha...

Minerva


...Meu paradoxo ou contra-senso não passa de uma Minerva às avessas, uma velha divindade cega, orgulhosa, arrogante, juíza e criminosa. A balança pende para o lado da espada, justiça, apenas a minha própria, auto-imposta, austera, rigorosa, quase infalível. Ai destes pensamentos impuros, algozes vorazes, abutres famintos em volta de uma podridão. O açoite que se impõe é feito de verdades e mentiras. Mas a consciência do dever me persegue. E, neste estado marginal, nesta vilania como um objeto abominável, encontro a arte. Na dúvida e na incerteza; só ali tenho a poesia que faz a vida. Prometo tornar o belo questionável, e o impuro virgem. Tento transformar o legível no enigmático, e todo paradoxo numa melodia harmoniosa de (des) razão. E que cada verso seja entoado no canto, e que cada canto seja silenciado num eco de inocência. O peso de minhas verdades será tão leve quanto a beleza da mentira. E que todos os ouvidos sejam violentados com minhas maldições e anátemas, e que a surdez seja acariciada com a vibração dos meus acordes em junção ás minhas odes. E que cada pedra da minha obra sirva como uma agulha no espírito dogmático de céticos e cegos. Pago o preço de um mundo de ponta-cabeça, voaria por todo o Universo, colheria cada estrela e rezaria para cada anjo dos céus se este fosse meu preço. Moveria a montanha para que, com potência e orgulho, meu grito, meu desabafo, meu desespero, desprezo e minha poesia fosse, em toda sua integridade, a mais pura arqueologia da minha alma. Não me importo de pagar também o alto preço da minha ignorância...