Fardo


E meu valor moral caiu aos pedaços. Não resistiu a tentação da apatia. Meus princípios tombam frente a prova de fogo e a inércia é forte demais para que eu movimente um dedo sequer. A deterioração é inevitável. Somem as cores vivas que pavimentam a alma; cada pedra é assolada pela rotina, ferida pela corrosão egoísta. No movimento que não cessa, o tempo urge. Não sobram trocados para a música solitária e funesta do observador. Tranquilizo-me, apenas, nessa auto-piedade; esperar o sofrimento é simples. Quem pode enfrentar, enfim, a certeza? Ai de mim, que me agarro a onipotência , como se o espírito estivesse largado em meio a um jogo de cartas. Isso é o que dá, apegar-se a deuses geniosos e amores platônicos. O fardo é pesado sim, porque assim posso reclamar por carregá-lo.

Cigarros


Tudo que ela fazia o tempo todo era exalar fumaça nauseante, enquanto aparentava uma nojenta cara de desdém. Nenhuma das trágicas e emocionadas palavras que ele soluçava pareciam susrtir o menor efeito. Era como se ele estivesse passando mal, vomitando qualquer bobagem sobre a torta de maçã. A cada sílaba trêmula, ele parecia ainda mais idiota, patético e ela, soltava ainda mais fumaça, feito uma chaminé de concreto, fria, imponente e voraz. Ele, vez ou outra, tentava manter o ritmo no diálogo, escondendo talvez o que restou da sua própria dignidade. Ela o encarava, decepcionada. Aqueles olhos azuis não perdoavam; pareciam dois facões que rasgava aos poucos, tornando a gangrena ainda mais dolorida e horrível. Os cabelos escuros faziam o contraste entre os dois. Ela, paciente mas instável . Ele, benévolo mas inseguro. A conversa não passava de um desperdício de frases. Um gole de café, um copo de vinho e fumaça. Uma bagunça de personalidade. E a relação sempre foi assim. Tentar encontrar algum sentido é em vão. Ele se levanta e diz não voltar mais, na esperança de causar alguma reação inesperada. Ela suspira, mais calma. Toma um gole do café e acende mais um cigarro. Cafés esfumaçados. Bela combinação.


Não existe folga para o louco. Não existe silêncio enquanto ecoa este grito cacofônico. Não há paz na trilha de sombras malditas, que se prolongam como uma capa horripilante que mata e planta a semente da desolação. O peso da aflição é maior do que a da própria vida. A ausência da simpatia é como uma sanguessuga de espíritos, vórtex, nonsense sulfúrica, seca as mais tímidas sementes da esperança. A falta de sossego; a inquietação que persevera é imbatível, perpétua. O nimbo do desespero é naturalmente incorporado, escuro contagioso que emana a quebra da alma. Fracassada, metafísico ao tempo. Dores do passado, presente e futuro.