É inútil tentar me desfazer deste nevoeiro traiçoeira que me cega meus olhos. Nem pelo toque de Minerva, nem pelos conselhos de Delfos eu poderia ser tirada desse labirinto. A chama invisível jamais cessa de fervilhar as minhas dúvidas. Sempre que fecho os olhos, encontro-me assim, como em um monumento de Dédalo, perdido dos fios da lã. E se os abro, a corrente de lembranças afoga a tênue linha de sanidade que ressoa dentro da minha cabeça. Acabo por cair involuntáriamente na armadilha dos jogos sórdidos, recitando lamentações do meu infortúnio sob uma máscara de hipócrita. Em verdade digo a todos, alimento-me com uma voracidade incontrolável desse desespero doce. Fujo a todos os olhares e mato minha sede por inconstancia.