Sinfonias


O regente desta sinfônia funesta, soturna é o próprio Pêndulo da Vida, que dança num compasso sem harmonia, dissonante ante qualquer beleza. Em cada badalada, um soluço inconstante, um grito de (des)esperança voluntária, um choramingo sem qualquer piedade. A cada onda, um abalo nos mais profundos alicerces dessa alma já em pedaços, tão esgotada de tanto juntar seus trapos e tão cansada de olhar para frente. Não há, nessa Orquestra terrível, espaço para que a tranqüilidade ignorante escoa. Não cultivam felicidade, estes seres vorazes, corcundas arbitrários de uma catedral agonizante, moribunda, assustadora e de uma frieza concreta. Deito-me à sua sombra, embalada pelo canto exaltado dessa melodia de desassossego, reclusa num pesadelo de voz grave e aspecto feio, velho. E de repente, bem no fundo, gritam com horror, prestes a explodir, e eu nem sei bem o que é. E na tentativa de desvendar, esta música segue, imponente e majestosa, sem me deixar fechar os olhos.


Na densa nuvem de poeira, voa todos os sonhos inacabados, livres das cobranças egoístas da esperança. Naquela vilania inconseqüente sela-se todos os pensamentos brilhantes e faceiros, longe de sombras escuras, aquelas que fazem gaguejar os adultos, que fazem blasfemar os conformados, que fazem gloriar-se os céticos, cegos com a fantasia própria. Bastou o toque da inocência ah tantos anos esquecida, para que um universo inteiro brotasse num piscar de olhos, em meio uma entusiasmada melodia, doce e sossegada. Compromissos e repressões não valem nada e no fim, nada mais vai significar coisa alguma e nada irá fazer sentido nem nos fará sentir. É como um fluxo contínuo, uma onda de palavras invisíveis e absortas. Uma emoção a cada toque e uma vida a cada palavra. Uma arca de tesouros escondido no fundo da alma de cada um de nós. Um pequeno mundo esquecido nos contornos de mãos que aparentam sofrimento, típica ação do tempo, que faz desmontar o sorriso do rosto, que faz esmaecer o vigor do músculo, que nos faz esquecer as brincadeiras, os gracejos virginais. E neste mundo, terra dos poetas decadentes, de crianças, sábios e de loucos, mora um pedaço de felicidade vindo na carona de um cometa, e que só irá brilhar para os puros, que não deixaram a ignorância tomar conta da alma Aqui continuo eu, numa conversa descontraída com Minerva que sempre aparece para nos visitar, me ensinando coisas da vida, e que também aprende comigo, rindo das coisas parvas e bobas ditas por mim, porque me faz feliz ver um sorriso qualquer, sem que para isso eu tenha que procurar palavras difíceis, misteriosas e cheias de arrogância somente para impressionar alguns na tentativa de esconder um egoísmo e ego descomunal. Um dia, nada fará sentido mesmo...

Horrorshow


“ (...)Então, irmãos, começou. Ah, bênção, bênção dos Céus! Fiquei deitado, completamente imóvel, olhando pro teto, o gúliver sobre as mãos no travesseiro, os glazes fechados, a rote aberta em beatitude, esluchando o esguicho de lindos sons. Ah, era o belo e a beleza feitos carne. Os trombones mastigavam ouro debaixo da minha cama, por detrás do meu gúliver, os trompetes lançavam chamas de prata em três direções e lá, perto da porta, os tímpanos rolavam por dentro das minhas tripas e tornavam a sair, mastigados como um torrão de trovão. Foi então, como um pássaro do mais raro tecido de metal celeste, ou como vinho prateado escorrendo numa espaçonave, a gravidade transformada agora em absurdo, veio o solo de violino, por sobre todas as outras cordas, e essas cordas eram como que uma gaiola de seda em volta da minha cama. Depois, a flauta e o oboé perfuraram, como se fossem vermes de platina, o espesso, espesso torrão de ouro e prata. Pai e mãe no quarto ao lado, já tinham aprendido a não bater na parede se queixando do que chamavam de barulho. Eu tinha ensinado a eles. Agora eles tomavam pílulas pra dormir. Talvez sabendo da alegria que eu sentia com a minha música noturna, eles já deviam ter tomado. Enquanto eu esluchava, meus glazes bem apertados pra trancar do lado de dentro a beatitude que era melhor do que qualquer ou Deus de sintemesque, eu via imagens tão lindas. Tinha veques e ptitsas, tanto jovens quanto estarres, caídos no chão, gritando por misericórdia, e eu gargalhando com a rote inteira toltchocando os litsos deles com meu coturno. E tinha devótchecas rasgadas e gritando contra as paredes e eu metendo nelas e, realmente, quando a música, que tinha só um movimento, chegou ao topo da sua torre mais alta, então eu gozei e esporrei e gritei aaaaaaaahhhhh de beatitude. E a linda música deslizou para o seu término cintilante. Depois disso, eu ouvi um lindo Mozart, e vi novas imagens de litsos diferentes sendo jogados ao chão e esmagados pela minha bota, e foi depois disso que eu achei que devia ouvir mais um último disco, antes de cair no mundo, e eu queria alguma coisa estarre, forte e muito firme, e foi J. S. Bach que eu ouvi, o Concerto de Brandenhurgo só pra cordas médias e graves.

Muito horrorshow caros droogs.

No outro dia, acordei ás 8 horas em ponto. Qual vai ser o programa, hein ? (...)”