Muda


Quem pode, ou quem ousa, traduzir os dialetos desconhecidos de uma era passada onde havia sensibilidade e felicidade? Nem ao menos consigo ser direta, nem atinjo a fronteira do poeta, nem do vidente. Continuo vagando em um limbo de vocábulos, sem anseio de que essa linha tênue de literatura realista me cultive ainda no Panteão que não me compete. Falar? Mais inútil ainda. São todos surdos. Meus discursos não são para todos. Quem sabe não é para ninguém. Mas esse dialeto estranhíssimo apenas eu compreendo e é o que me faz transcender em meio ás florestas boreais. Outro dia, falei aos pássaros sobre a minha auréola de loucura. Falo introspectivamente e não deixo o tímido se confortar. Falo sozinha, para mim e ninguém mais. Meu templo não precisa de ajuda para ser erguido e minha fé é inabalável, implacável, dedico ela toda aos Deuses que não possuem nome, que são invisíveis e habitam lugar nenhum.