Molto Vivace !


Sob o som da gaita-de-foles, lerei uma miserável ária que treme em meus lábios. Ao som do violino, as belezas do passado vão dançar, envolvidos pelas cores inebriantes que se movimentam conforme o fogo ordena. As palavras, os vocábulos viajam guiados pela atmosfera da fantasia vão, majestosamente, formando a mais bela ode, cheias de sóis poentes, cometas e caudas, estrelas e brilhos, molhadas com orvalho e brisa da manhã, resultantes de uma belíssima aurora boreal. Palavras e notas, em harmonia perfeita como se fossem serpentes encantadas por uma flauta hipnótica. O som mágico das harpas te faz esquecer teus problemas e dores. Hoje, o crepúsculo é para a dança, nada de prantos. Ignore a realidade. Sonhos de cristal, suspiros de ametistas polidas, olhares de safira, amores de diamantes. Tudo o que você precisa, neste momento, está aqui. Cerre os olhos, abra os braços, estenda as mãos. Sinta com toda a imaginação que tiveres este presente dos céus. Ouve o druida cantar, ouve a harpa da fada, ouve a voz suave da ninfa. Querem que você viaje com eles, embarque, aventure-se! Só por alguns segundos e mais toda a eternidade. Ouça a melodia, é pra ti esta canção.

Espelhos...

Muitas vezes me perguntei sobre o valor da diferença, se é que pode haver nisso algum valor. Tentava, ingenuamente, entender a alma alheia como se fosse a minha própria, buscava compreender qual era a motivação que os levava a existência, o que é que forçava seus sentimentos. Tirava por poucos segundos o manto do egoísmo, afinal, eu tenho um coração. E lá estava eu, uma observadora que tinha receio em tocar a paisagem, eu era como um sombra, que prefere ouvir, falar pouco, pensar a agir, eu era um sussurro. Os afazeres eram exaustivos e era difícil esquecer de mim, esse era o peso mais enfadonho. No alto da minha consciência, eu voava... uma boba, azeda, amarga, ruim e freqüentemente preocupada. A máscara, os disfarces, guardei todos no armário, amassei as fadas para dentro dos livros novamente, pedi para que cessassem as cantorias e as brincadeiras. Olhei para os outros, estes, por sua vez, tocavam músicas tristes e o sorriso não era belo, era sofrido. Nas músicas destes seres, foi que eu vi que era a outra, porque eu prefiro ser a outra, ter outras dores para me queixar, aprender com outros erros, me apaixonar por outros, outros amantes. Um altruísmo platônico creio eu, que vive em um castelo cercado por muralhas e feras indomáveis e que possuía milhões de espelhos. Eles mostravam o reflexos de outras vidas, de momentos perdidos, beijos não dados, abraços negados. Diante disso, eu, inocentemente gritava de sofrimento, e sem perceber, desviava os olhos para dentro de mim mesma, via que tudo que o espelho refletia era nada mais do que o meu próprio eu, porque eu tinha medo de encarar, e corria.
Desta forma, parei de me machucar com dores alheias, não procurei mais sofrimento em terras distantes. Arranjei uma pá e fui escavar minha alma, esmiuçar meu espírito, procurando preciosidades trancafiadas em baús de madeira velha com fechaduras de ouro, era ali que minhas vontades estavam.
Antes, era eu uma sombra invisível vagando por outros seres, agora sou sombra vagando para mim mesma, sempre na esperança de que um dia desses, eu possa explodir de vez no mundo. Espero com ansiedade pelo dia em que vou nascer, dar meus primeiros pequenos passos e balbuciar minhas primeiras palavras, já tão cansadas de procurar quem as ouça, exibir meus primeiros sentimentos, para quem sabe, atingir como uma flecha aquilo que costumam chamar de existência.