Dawn of a New Century!


Daqui do alto de minha Torre de Marfim, não vejo ninguém, além de ninfas e brumas fazendo suas cantorias e brincadeiras diárias. Minha voz aqui ecoa distante, de uma forma que só pode ser ouvida por um vento triste de um céu indiferente.
Leio poesias, profiro palavras sábias e bonitas, porém, são todas inaudíveis, já não fazem parte desta realidade. É como uma mentira que eu mesma criei, acreditei, para que, de certa forma, me sentisse confortável, cega, diante dessa tão maquiavélica realidade mundana. Se eu tento tocar este mundo, com um dedo que seja, tímido e medroso, um sopro de ar frio me desencoraja. Então daqui, só observo. Pessoas..Pessoas que passam por um falacioso profeta qualquer, vindo de qualquer ponto do fim do mundo e deixam-se levar por suas palavras jocosas, falsário que encanta a todos os humanos dali com uma mediocridade incrível assim como um serpente destila o seu veneno...E eu, por fim, caio na real. No meu real. Uma enrascada surreal que dói, mas é tentadora, absurdamente tentadora...Não existo e não deixo referências. Continuo ali, estática, contrita entre as regras e leis de uma vida normal e o caos dionisíaco. Resolvi então optar pela última opção e fazer do caos, o meu bálsamo, é sempre um excelente ponto de fuga para ignóbeis que adoram rondar meus espelhos, sujando de ignorância este vidro fino e delicado que me mantém afastada de coisas que desconheço, me mantém afastada desta coisa ridícula que chamam de vida. Observando mais atentamente, enchi-me de cólera descomunal por não compartilhar dessa juventude atual cheia de infantilidades e futilidades alcançadas somente pelos mais selvagens, impetuosos e imbecis heróis cotidianos, ridículos como só os humanos podem ser. Diante disso, o que me resta? O tudo! O universo está aqui na palma da minha mão, e, por mais que eu a feche, ele escorre por entre os dedos se fazendo poeira estelar de vidas de infinitas cores e odes...embriago-me nos meus pensamentos, tão insanos e insossos...tão perfeitos á minha ótica, axiomas vazios, monólogos da minha alma de virgem que jamais será violada por um feroz abutre qualquer. Fico assim, agarrada ao meu abstrato, enciumada, violenta, por vezes louca, esperando um diamante que jamais será desejado por ninguém, a não ser eu mesma. Alma virginal de águas embaraçadas e de safiras brilhantes que encontra carinho no seio das palavras e das filosofias e que me guiam para eternidade da minha existência em um tempo de nova Era.

Sono...


O firmamento não me parece mais tão firme, pois respinga seus horrores sobre mim.
Cada pingo, um meteoro gigantesco, fulminante em velocidade absurda pronto para colidir e destruir. Quem é que pode dormir em sossego se lá fora um leão faminto ruge enquanto cai uma tempestade atroz de lamúrias e obscenidades, fadadas pela ansiedade?
Uma nuvem de mágoas e anátemas vem se aproximando, ação do vento de desespero e terror fazendo a noite se prolongar ainda mais. O relógio ao lado da minha cabeceira se transforma em um brinquedo macabro, uma ceifadeira que se move ao compasso dos segundos, anunciando o lapso eterno, com exatidão, o minuto e a hora em que a vida terminará. Os lençóis da minha cama agora estão imundos, putrefatos, sujos com a vergonha, não escondem mais as infâmias espirituais, as aberrações da alma, o pecado original, agora são só um peso de condenação velada, carniçaria subjetivada. Meus olhos não piscam, não consigo mover as pálpebras, pois tenho que acompanhar as atrocidades dos falcões assassinos invisíveis, os hereges inexistentes que me perseguem imaginariamente, o sono por si, é só, presente de hecatombe. Fogueira da inquisição, desassossego eterno. Meu quarto, meu refúgio, palácio sinestésico. O terror do sono.

Novo Titã


E minha escuridão me pegou para sempre, não adianta Hécate retirar seu manto negro de cima de mim. Não reconheço mais rostos diante de meus olhos, ainda que fosse aclarada pelo raio de Zeus . Não sinto também o chão sob meus pés, mesmo que Ártemis se curvasse em minha frente. O céu sumiu, ninguém viu, nem mesmo Urano conseguiu o segurar com sua mente forte. O vento havia parado, e seria ineficaz até o mais forte dos sopros de Éolo. De que me adianta a centelha dos primórdios do Caos se não tenho inocência suficiente para caminhar sobre o Elísio destinado a nós, viventes? Todo o Olímpo não seria suficiente para me tirar desse péssimo êxtase natural, presente desde meu primeiro suspiro na realidade consciente. Hesíodo poderia cantar mil bravuras de Zeus e Apolo, Hércules e Ciclope, nada me comoveria e nem me removeria do estado de catarse em que meu pensamento se encontrava. O presente enviado por Hermes não teria utilidade nenhuma, e o amor de um Euro não tiraria de mim qualquer tipo simpatia. Não desejo o escudo de Minerva, nem a lança de Atena. Eros não vence tudo e as Ninfas não tem uma boa melodia para esta hora. Não sai do meu corpo o pessimismo, tão pouco o desejo ou a esperança. Não há nada que faça eu me locomover. Não existe outro brilho nos meus olhos a não ser o de um único desejo. Se minha alma incendiar, queimará com apenas uma chama. Ela brilha para o meu Cavalheiro, meu mais novo Titã, a quem, sob relíquias santificadas, jurei ser fiel, meu bravo cavalheiro, tão errante...