Caía uma chuva fina. As pessoas se apressavam, levantando sobre a cabeça
o guarda-chuva aberto; de repente formava-se um tumulto na calçada. Os homens eram
amáveis, e passando perto de Tereza, levantaram o guarda-chuva mais alto para abrir-lhe espaço, mas as mulheres não se afastavam um milímetro. Olhavam em frente, com o rosto duro, cada uma esperando que a outra se confessasse fraca e capitulasse. O encontro dos guarda-chuvas era uma prova de força. No começo, Tereza se afastava, mas quando compreendeu que sua cortesia jamais era retribuída, seguiu o exemplo das outras, passando a empurrar com mais força o guarda-chuva. Muitas vezes seu guarda-chuva esbarrava violentamente num outro da frente, mas nunca se ouvia um pedido de desculpa. Em geral, ninguém abria a boca; duas ou três vezes,
porém, ouviu: "Puta!" ou "Merda!". Entre as mulheres armadas com guarda-chuva, havia jovens e mulheres mais velhas, mas as jovens estavam entre as combatentes mais intrépidas. Tereza lembrava-se dos dias da invasão. Mocinhas de minissaia passavam, e tornavam a passar, carregando a bandeira nacional na ponta de uma vara. Era um atentado ao pudor contra os soldados russos, forçados por muitos anos à abstinência sexual. Em Praga deviam imaginar que estavam num planeta inventado por mulheres incrivelmente elegantes, exibindo seu desprezo, empoleiradas em longas e bem torneadas pernas, como há cinco ou seis séculos não se viam em toda a Rússia.
Durante esses dias havia tirado inúmeras fotos dessas mulheres, tendo ao fundo tanques de guerra. Como as admirava então! E eram exatamente essas mesmas mulheres que via hoje, avançando em sua direção, rabugentas e vulgares. Em vez de bandeira, carregavam um guarda-chuva, mas carregavam-no com a mesma arrogância. Estavam dispostas a enfrentar com a mesma fúria um exército estrangeiro e o guarda-chuva que se recusava a dar passagem.

- Milan Kundera, Nesnesitelná lehkost bytí.