Desconcerto


Eu abomino a IMPURA luz da aurora mentirosa e sei bem o que é chorar. Meus rifles e canhões preparam a sinfonia prelúdica do gênesis, retinem e estilhaçam as imensas portas da percepção, um tornado de víboras venenosas é avistada colina abaixo. E eu nunca poderei ser compreensiva.

Subjetivo

Eu sou este quarto de doente terminal sempre de luzes acesas e sempre escuro, um segundo estático, uma queda em suspenso e sinto frio. Muito frio.

Da Frieza


Vós me destes a frieza que nasce das vossas concepções sublimes, isentas de paixões. Dela servi-me para recusar com desprezo os prazeres efêmeros da minha breve viagem e para devolver à minha porta as oferendas, simpáticas porem ilusórias, dos meus semelhantes. Vós me destes a prudência incessante que se decifra a cada passo em vossos métodos admiráveis de análise, síntese e dedução. Delas servi-me para derrotar as artimanhas perniciosas de meu inimigo mortal, para atacá-lo por minha vez e para enfiar nas vísceras do homem um punhal agudo que permanecerá para sempre cravado em seu corpo; pois essa é uma ferida da qual ele não se curará. Vós me destes a lógica, que é como a alma de vossos ensinamentos cheios de sabedoria; com seus silogismos, cujo labirinto complicado é cada vez mais compreensível para mim, minha inteligência viu duplicarem-se suas forças audazes.

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O Tédio


Quando os densos céus pesam como âncoras em almas vítimas de tédio infinito resignadas ao circunflexo horizonte, os dias se arrastam tão tristes e sombrios quanto as noites. Quando o chão da tua morada se transforma em uma masmorra assombrada e a esperança se vai com os uivos dos ventos lá fora e quando as águas, ao derramar seus fios de prata imitando assim as melancólicas grades de uma prisão e a população de aracnídeos tortos construir em nossa cabeça uma teia podre e firme, as badaladas dos sinos lançam no infinito um grito aterrador como almas sem pátria e vadias que gemem como enfermos. Sem sons e incolor, vai passando graciosamente meu espírito doente, de cabeça erguida e empoleirada no alto de pernas torneadas e medrosas. Gritam as esperanças e me consola a angústia, prepotente e sádica, Salva de tiros e aplausos, golpeiam-me e cravam no crânio uma bandeira negra.

Capítulo último - O Fim de um Novo Começo


Mas ainda assim, nos mais distantes confins das órbitas... Onde os ventos trazem folhagens estéreis e cítricas por tensas reflexões sobre o passado, no ermo íntimo de nossa essência, onde só há o vácuo das nossas obras e lembranças, encontraremos a verdade tramada com a perturbação de quimeras reveladoras, aí tu acordará ofegoso e refazendo-se puramente, entornará lamúrias infindáveis. E aqui, leitor meu, chegamos ao fim deste livro traumático e insólito, nefasto e romântico. Porém, não chegamos a ponto de mortos. Logo atrás, nossa furiosa solidão procura nossos olhos para adentrar e lá permanecer por um longo, longo tempo.

Exílio


Nos drogamos ao nos apaixonarmos. Afirmamos detidamente sentimentos obscuros embaixo do escudo dos desejos infames, por mais mesquinhos, egoístas, pequenos. Palavras quaisquer são proferidas, embarcam na loucura dos ventos e vão para longe do nosso íntimo ser, restando apenas resquícios de ilusões. Entretanto, não bastam apenas textos e mais textos contatando nossa realidade diante de tal enfermidade, é preciso vivê-la com a carne, é preciso deixar que sua estupidez seja assistida pelos ecos de uma existência misantrópica. A desgraça evoluí, dilacera, gela teus instintos e por fim, se torna bela. Tu não devias ter aberto sua boca imunda ao tentar contradizer-me aos romantismos, perdeste tua credibilidade toda, tua vergonha escorre por cada poro do seu corpo e suas ações são totalmente colocadas em xeque.
As árvores dançam, as folhas tremulam no ‘mónocour’ do passado. Gritos, beijos, abraços, verdades esfaqueadas e um cigarro aceso voltam a realidade. Como um prelúdio surreal, o beijo estala trépidamente anunciando o caos. Não é necessário continuar a narrar, caro leitor, a barbárie da carne é bela e espantosa, igualmente, apenas imagine.
Restou aqui um único caminho a seguir. Aventurar-se é perigoso, podes atingir o êxtase ou cometer o suicídio. Vê tuas decepções,encara teus milhões de erros irrefutáveis, ora, apenas isto basta para que um buraco profundo te apareça no peito e o consuma, dissipando qualquer evidência de vida vivida e vida morta, O amor foi o primeiro a ser banido de vez do teu novo reino. Não podes mais aproximar-te de alguém...o que acha que encontrarão ao cavarem tua cova no peito ?
Lembranças hoje trazem lágrimas e lágrimas afundam navios de sonhos que vagam sem rumo certo em um oceano de ossadas. Refuto aqui a teoria: Me foi prometida a felicidade eterna depois do éter desaparecer por completo. Desapareceu tudo e não ressurgiu nada. Pois bem, traço meu próprio fim: Assim como a fênix que renasce das cinzas, meu pessimismo se fez vivente, e então, voou pelas eras estilhaçando o vermelho, respingando ira e amargura nas faces dos Deuses, o peso das lamentações foi capaz de afundar o mais imbecil apaixonado e o mais benevolente entre os amantes. As palavras se fundiram aos chamados grotescos e se fez ali a mais bela dentre todas as sinfonias já orquestradas. Aceita tua condição, aprendiz de Medéia...


A cortina do palco de um coração honesto já vai se fechando, a felicidade tardou demais a chegar e as folhas já estão caindo pois as novas precisam nascer...

Canto ao Nobre


Quando os demônios traiçoeiros dos mundos inferiores resolveram assombrar os fortes e bravos, não se poderia mais voltar. O chão estava manchado com sangue inocente, oculto pelo nevoeiro fúnebre vindo das chaminés dos mundos proibidos. Restaram poucos servos com coragem suficiente para encarar os olhos na face do mal. Deste poucos, sobrou um. Um único ser que aventurou-se pelos portões frios com seu cavalo, provocando estampidos e urros, como uma tempestade castigadora. Caminhava sozinho para sua maquiavélica sina. Berrou para a criatura terrível, os portões abriram-se e o som de mil aves negras e nefastas ecoaram pela imensidão do campo das lamentações. Lá a frente o senhor funéreo esperava o nobre cavalheiro, aproximaram-se...O senhor o golpeou por 3 vezes, por 3 vezes o nobre cavalheiro aguentou. Das montanhas férreas o destino dos camponeses era decidido, precisava ser rápido, a âncora das profundezas estava prestes a emergir e levar de vez para o submundo aquele que cair. O cavalheiro clamou pelos deuses, clamou por Odin e por seus pais e com um suspiro forte, o golpeia certeiramente do lado esquerdo do peito, fazendo os demônios gritarem e pedirem misericórdia, as aves negras da estinfale se desintegraram no ar restando somente o pó dos ossos. E assim caiu o Rei supremo, rei dos reis, o mais viril dentre todos os malditos.

Saudade...


Abóbadas celestes belas como pedras ametistas, cheias de brilhos, glórias e histórias como os olhos dos Deuses. São os olhos sempre vigilantes que a tudo vêem e levantam guarda armada para o longo caminho de todos aqueles que se aventuram nas alamedas da Alma. Dos passos em terra ecoam saudades, do olhar vago para o infinito faz-se viva as lembranças passadas e dolorosamente suportadas, no entanto, são nebulosas e fugazes. As faces que um dia riram sem motivo aparente, hoje já não possuem mais contornos definidos, adquiriram aspecto velho, atrofiado...a face bela que um dia esbanjava vida sublime já não pode mais ser tocada, está desmanchada. A voz nobre a altiva, doce e serena agora faz coro com os sopros angelicais. O olhar terno e inocente de força imensurável já não me passa a mesma segurança de outrora, mas sei que lá do alto de alguma estrela jovem e perdida, seu zelo pela minha paz de espírito continua a assegurar minha humilde existência terrena. Em cada rajada de vento, uma lembrança doce. No raios de um sol tímido de outono e nas folhagens secas dançando pelo ar antes de chegarem ao chão, toques de mãos, dedos que não se entrelaçam mais aos meus. No brilho da lua curiosa, o riso lascivo e brincalhão de um ser que não carrega mais o fardo pesado da existência. Verões risonhos de noites frias forçam-me a trocar o afago do abraço quente e amigo pela dor para sempre inconformada da perda. Soluços reprimidos em cada lágrima acompanhados da esperança de um tempo de nova era, onde juntos, o teatro da vida nos espera para um espetáculo de poesias, surpresas e travessuras. Um dia...

Presente de Hecatombe


Espera agonizante por mais um dia de rotina. Os segundos de dor se entendem por horas e os momentos de alívio são curtos demais. Olho pela janela...inúmeros seres em igual tormento... Indago sobre tudo...Quantos mais estão se perguntando o porquê disto tudo neste momento ? Quantos mais pensam na imensidão e se perdem no sorriso minguante da lua ? Será que também, como eu, buscam perfurar a mão dos deuses ? Respiro fundo... o vidro embaça e rabisco ali algo sem nexo mas que logo some. Procuro um porto seguro onde eu possa ancorar, uma fração mínima de otimismo que seja... Amanha será outro dia....talvez eu acorde melhor e não reclame do sol escaldante inundando o quarto, talvez amanhã eu melhore...talvez amanhã...mas por hoje, não.

Utópico

Fez apaixonar-me pela mínima fração de vida que ainda restava e então, fui mais valente que uma horda de mil trolls e tão esperançosa quanto os cavaleiros da criação. E agora só me pergunto onde foi que perdi isto tudo.

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E o passado ainda provoca ecos, fortes e majestosos. Repercutem na cabeça já tão doentia, combustão de nostalgias e algumas dores. Perambula pela rua a noite, no frio, seguindo o vento que sopra errante, não se sente um habitante do mundo, não deste mundo...se confunde nos sentimentos antigos das experiências vividas tendo como companhia amores gelados e sepultados. Nos sonhos, aparece somente quem já se foi e o desejo é por alguém inexistente. Cada lágrima que escorre desgasta ainda mais a face já tão destruída, o peso da vida parece um fardo impossível de se carregar. “Siga em frente!” – murmura a si mesmo, e, ao mesmo tempo, olha para trás por sobre os ombros esperando por algo que não virá. Não se guarda esperança alguma mais, as certezas agora são como a areia que escorre pelo vão da ampulheta. Espera o passado e não olha para o futuro, não cria ambições, não degusta o presente. São pessoas que não nos pertencem, possuem hábitos estranhos, avarentos, chegam quando piscamos os olhos e se vão da mesma estranha forma, se perdem no tempo e o tempo já passou.