Se com veracidade afirmamos que a nossa atual era é a mais agitada e barulhenta entre as demais, declararíamos com igual verdade que nosso tempo é o mais calmo e silencioso da história. Ao contrário do comum, penso eu que o barulho não é exatamente o avesso do silêncio, como se alegaria em uma primeira insensatez momentânea. O aparente absurdo é resolvido se abrangermos que basicamente o barulho é composto pelo mesmo princípio que o silêncio, somente disposto de uma forma diversa: o princípio é o vazio. Basta nos vermos cercados de silêncio, ou então de barulho em excesso, e nossos axiomas e pensamentos divagam, correm aéreos, afoitos por sentido. Nos incomoda um pouco este imperioso convite a qual ficamos sujeitos. Ah vários anos atrás, diversos autores escreviam sobre o sufocante silêncio dos soldados de guerra voltando de suas trincheiras em silêncio. Outrora, o retorno da guerra obrigava que as experiências e horrores fossem narradas, compartilhadas. O sentido, por conseguinte, submerge no absurdo, as narrativas não pareciam viáveis, perece cada palavra proferida, as ruínas de uma língua morta fora tudo o que restou de uma linguagem solitária e imobilizada. Faltam utopias, faltam idealizações, reside aí o motivo pelo qual o mundo é vazio. Miserável ao limite, nossa era não passa de uma poça rasa. Paul Scheerbart me compreenderia. Mundo de vidro, não ? Devaneio besta.

Observações de Cafeteria – I

De modo algum é graça que falta ao chamado senso comum, nem excitabilidade, nem afeição – sejam quais forem os significados que tais termos imediatamente adquirem na compreensão. Claro, também não se trata de recusas histéricas ao estético deleite ou um grau mínimo de contentamento. Trata-se somente do exagero de transparência, a falta de mistério.
Tal qual aquele rapaz que adentra no café onde estamos, a primeira vista, suas tantas formas são belas e robustas, seus traços másculos. Os cabelos escuros cuidadosamente jogados para trás conversam com seus ombros largos e provavelmente suas costas possuem formato em “V”. Os passos são leves, porém, viris. O paletó aberto mostra sua camisa justa ao corpo e atrai o olhar e talvez ainda possua aquele inocente perfume colônia, mistura de água com alguma coisa a mais. Harmonia quase perfeita. Isso tudo quem sabe nos arranque um ligeiro sorriso e nos faça torcer o pescoço para observá-lo melhor, mas nada disso ainda é suficiente para que nos levantemos e ousemos um diálogo. Tem o olhar transparente, alma cristalina. Nós o olhamos e só, sem quaisquer possíveis refrações.
A inevitabilidade das desordens e desgraças é um peso que surge sem querer. De alguma forma podemos adivinhar imediatamente de onde virão todas as suas idéias e pensamentos, consciente ou inconscientemente. Nada, nenhum “quê” enigmático floresce dali. Ele, no máximo, pode nos sorrir e assim nos despertar uma inebriante alegria de momento, uma excitação, um tesão de corpo e espírito. Então, seu sorriso outrora cheio de júbilo esmaece, torna-se diáfano, estupidificado. Ali, falece.

Pelos idos da Segunda Grande Guerra - aqueles tempos em que a inexorável mutabilidade dos acontecimentos enlouquecia os combatentes e as somas de todas as suas forças desdobravam-se silenciosas e nebulosas nas moradas inóspitas do bosque do assombradamente péssimo, Fritz recordava-se de um passeio pelas brancas invernias em companhia de um excelentíssimo jovem louco. O jovem louco sentia-se arrebatado diante das paisagens, esticava seus brancos dedos esqueléticos como se tentasse tocar nas árvores distantes. – “Vê, não obstante, a esplêndida beleza natural é incapaz de evitar o futuro: sua dissipação, o seu desaparecimento por completo. Exóticas planícies, fúnebres matas, espetáculos boreais e também tudo aquilo de aspecto elevado que o homem possa construir: a nobreza, as ternas esperanças, sentimentos e importâncias e unido a isso morre também aquilo tudo que outrora se julgava válido de ser vivido, digno de matar e morrer. Tudo isso estaria antecipada e fatalmente, a despeito de sua empáfia, condenado a um sumiço impassível, trivial, alheio a quaisquer sentimentos antes nutridos”. Fritz resigna-se e decide não partilhar da melancolia do jovem louco. Viu no amigo um narcisismo doentio. “-A busca pela imortalidade das coisas é tão apenas uma invenção sem direito algum de reclamar para si o valor da realidade. Além disso, não haveria ensejos para que a passageira beleza provocasse sua desvalorização”. Sem muita certeza se acreditava no que acabara de dizer, sentiu-se enrubescer, um pouco temeroso disse por fim “– O luto é um mistério. Frente à perda do elemento amado, nossa libido, capacidade de amar, se liberaria uma vez mais a procura de elementos substitutos para se ancorar ou sua projeção sobre o elemento se extinguiria e retornaríamos, temporariamente, ao nosso eu.” Parou por um momento, observou um fio de água escorrendo entre as pedras e caindo na vegetação rígida pelo frio, pigarreou continuando “-No entanto, não compreendo porque tal desapego pelo elemento amado quando este se vai é um procedimento tão doloroso. Creio que nenhum de nós compreende isto, não possuímos ainda a capacidade de relatar este processo por nenhuma suposição por mais hipotética que seja. Somente vemos a libido aportar em seus elementos novos sem a renúncia pelos elementos já perdidos, mesmo quando meros substitutos. Isso é luto.” O jovem louco e estático, abismou-se diante da mente desconcertada deste homem tão engenhoso como era Fritz. “– Este homem impetuoso nem por um momento pensou em colocar em xeque seu raivoso impulso!” Pensou ele. “– Falou e falou sem dizer nada, o importante da questão fora descartado, sua integridade de homem o impediu de confessar, por fim, que ele nada sabia sobre o que estava a dizer, passou-me um completo atestado de ignorância!... “-Eu vou te falar, estimado camarada Fritz. Eu vi sua tensão e seu desconcerto causado por este simples questionamento. Sua mente tão prodigiosa calou-se tão somente por que, com mil demônios, isso dói! E dói muito! Pode haver neste mundo milhares e milhares de elementos substitutos, podem ser eles protegidos contra riscos mundanos, que sua integridade e existência sejam perfeitamente talhados e que estejamos sempre prontos a distinguir qualidades e imperfeições no elemento amado, que enxerguemos a tristeza previamente neste amor e mais uma miríade de males para a nossa saúde e podemos até enfim entender que o desaparecimento deste elo é sob inúmeros ares positiva. E assim, mesmo os mortos de ódio serão chorados, mas apenas alguns nos deixarão saudade. Luto é estar no fundo do poço, a trivial transmutação da beleza é a outra face da moeda, é o que bastou para que reinasse em mim a desesperança, o luto nasce até em detrimento de tudo que pode haver de mais miserável neste mundo.” Fritz refletiu por um momento, mas sua furiosa solidão lhe ensinara muitas coisas, entre elas, que a vida não vale tanto assim. “- Mais do que uma mera conversa sobre mortes, a alma deixara visível seus rastros. É tempo de esquecer, saudades não mais existem. O que há são jovens loucos e jovens confusos, cada qual equivalentes em suas grandezas. Não haverá mais queda alguma. Nada há além do esquecimento, após o fundo não há mais poço. Para os que ainda não alcançaram a indiferença completa, um único caminho se abre.” Disse por fim, tomando o rumo contrário ao do jovem louco que nem sequer percebera que o amigo afastara-se. Como que estar a falar de círculos quadrados, o niilismo toma as proporções da eternidade. Possesso, seu espírito pende de um galho seco e sufoca, enquanto no galho ao lado, ele continua a brincar, perdido em sua doçura...