Observações de Cafeteria – I

De modo algum é graça que falta ao chamado senso comum, nem excitabilidade, nem afeição – sejam quais forem os significados que tais termos imediatamente adquirem na compreensão. Claro, também não se trata de recusas histéricas ao estético deleite ou um grau mínimo de contentamento. Trata-se somente do exagero de transparência, a falta de mistério.
Tal qual aquele rapaz que adentra no café onde estamos, a primeira vista, suas tantas formas são belas e robustas, seus traços másculos. Os cabelos escuros cuidadosamente jogados para trás conversam com seus ombros largos e provavelmente suas costas possuem formato em “V”. Os passos são leves, porém, viris. O paletó aberto mostra sua camisa justa ao corpo e atrai o olhar e talvez ainda possua aquele inocente perfume colônia, mistura de água com alguma coisa a mais. Harmonia quase perfeita. Isso tudo quem sabe nos arranque um ligeiro sorriso e nos faça torcer o pescoço para observá-lo melhor, mas nada disso ainda é suficiente para que nos levantemos e ousemos um diálogo. Tem o olhar transparente, alma cristalina. Nós o olhamos e só, sem quaisquer possíveis refrações.
A inevitabilidade das desordens e desgraças é um peso que surge sem querer. De alguma forma podemos adivinhar imediatamente de onde virão todas as suas idéias e pensamentos, consciente ou inconscientemente. Nada, nenhum “quê” enigmático floresce dali. Ele, no máximo, pode nos sorrir e assim nos despertar uma inebriante alegria de momento, uma excitação, um tesão de corpo e espírito. Então, seu sorriso outrora cheio de júbilo esmaece, torna-se diáfano, estupidificado. Ali, falece.