Sim, como nos diz Dostoiévski, dizer que dois e dois são quatro é de fato uma coisa magnífica, mas dizer que dois e dois são cinco é também uma coisinha encantadora.

Atentai-vos a um trecho de Pensées, onde Pascal demonstra que a virtude não nos permite que mantenhamo-nos em pé por nosso próprio poder e força, mas sim que, são necessários dois vícios opostos para garantir sua compensação verdadeira., mantendo deste modo o assombroso equilíbrio vital de enganos, desesperos, choro, dor e vícios simetricamente dispostos, permitindo assim, a não destruição da vida, seja por nossas próprias mãos ou ela por si mesma. Não é preciso dizer que a forma mais eficaz de se livrar de um vício é introduzindo outro no lugar. Caso não ocorra essa substituição imediata, o peso do anterior nos desintegraria por completo.
O processo da saudade segue simetria semelhante. As saudades daquilo que poderia ter sido e não foi, ou daquilo que chegou muito perto de ser porque se acreditava...eis aí o necessário contrapeso da saudade real e abstrata. É esta exata regularidade simétrica que nos impede de sermos devorados por esta ou aquela outra saudade lá, seja qual for. Como se observa, o nível do equilíbrio se desdobra, já que é somente graças ao esquecimento desmesurado que é possível crer em uma vivência pretérita de algum domínio, ansiado ou real, baseado no sentimento de falta, é igualmente graças ao esquecimento que podemos chegar a percepção/sensação de que aquilo era em essência, bom. Esquecemos o que perdemos e ainda caímos na bobeira de achar que ganhamos algo, não obstante, se vai ainda todos os traços horríveis que tínhamos a obrigação de guardar para sempre na memória e achamos, feito crianças, que ganhamos uma coisa boa. É assim, no vil jogo do esquecimento que nossa vida nos passa a perna, elucida, engana e embaça nossas vaidades, obrigando-nos a aceitar autoritariamente a idéia de algo ‘valeu a pena’. No entanto, por irônico que seja, é o que nos confere a possibilidade de distribuir um bônus de dignidade ao nosso passado de banalidades.
Hugo, em uma de suas tantas passagens belas, menciona uma inominável saudade, que chora silenciosamente a vida, como quem passa de madrugada pelas ruelas que nos são familiares. Visualiza ao longe, naquela ponte distante, passar por baixo um marinheiro solitário que se delicia ao perfume da flor azul, que desembarca fazendo farfalhar o cascalho e se dirige á sua morada, ao seu quarto vazio á meia luz, esperando algo que o leve para longe daquilo que podia ser e não foi.

Se não é possível eliminar a saudade, penso que seria bom ás vezes ser um pouco mais fácil deixá-la falecer.

Do amor

Falar o quê sobre o amor ?
Se nossos amores tivessem lido Nietzsche, talvez a vergonha lhes encobrisse a face. De suas pretensiosas boas ações e intenções cheias de graça e beleza nasceria uma doce repulsa por tais comportamentos tão procurados. Um mar de covardia é o que está, geralmente, por trás de tudo com ares muito belos e desejados. Sabemos, por exemplo, que de nossa época, não há nem velhos, nem crianças nem jovens dignos de grandes suspiros. O sentimento de pena nos toma por completo. Se nossos amados algum dia na vida chegam a fazer a coisa certa, certamente não foi por consciência própria. O que dizer dos amores capazes de converter os enamorados a ponto de haver uma dupla anulação de personalidade ? Eu chamaria estas pessoas de corações-ranhentos, a culminância da mendacidade.

Mas ainda não é bem isto que eu gostaria de falar sobre o amor.

Se nossos amados tivessem lido algo mais prático, como Mauss, por exemplo, saberiam nossos amores que amar alguém é nada mais do que furtar algo daquele a quem supostamente se ama. É o compromisso subtendido por uma mera recompensa por fruição de afetuosidade. Amor sempre foi visto como algo perigoso de ares insolentes e ameaçadores. Não é á toa, que a palavra amor, se utilizada o seu vocábulo, transforma-se em ‘toxina’, se comparado ao antigo idioma germânico. Parece-me que já os antigos desconfiam do aspecto tóxico do afeto. Ou então, mantinham os olhares atravessados em relação ao aspecto virginal das dádivas. O amante oculto, a busca incessante de todas as gerações, incluindo a nossa, é um leve indício de desgraça, de querer destruir o belo e dar espaço para o repulsivo, elevar a promiscuidade sob a máscara da honestidade.

Vamos em frente...

Se nossos amados lessem O. Henry, talvez saberiam que dar amor é como presentear alguém com uma bela pulseira de relógio antigo. Pertencem a uma outra temporalidade, que jamais se ajusta ou se conforma com o meio e as circunstâncias. São, em todo caso, promessas, não obstante, furadas e raramente cumpridas.

Enfim, esqueçam, não há nada para se falar sobre o amor.

Cantiga de Adormecer

Porque podem sim, as coisas mais preciosas do mundo perderem o seu brilho, não somente sua beleza, mas também o seu significado e sentido. Podemos sim tornar isto tudo real sem precisarmos mover coisa alguma. Pode ser na mesa de um pub, ou na loja de fumos do poeta. Será sempre ilusório. Ás vezes, não querer o querer dizer algo, não é, de forma alguma maior que o seu aposto. Mas isso também vai passar.

Blog ressucitado.