Do amor

Falar o quê sobre o amor ?
Se nossos amores tivessem lido Nietzsche, talvez a vergonha lhes encobrisse a face. De suas pretensiosas boas ações e intenções cheias de graça e beleza nasceria uma doce repulsa por tais comportamentos tão procurados. Um mar de covardia é o que está, geralmente, por trás de tudo com ares muito belos e desejados. Sabemos, por exemplo, que de nossa época, não há nem velhos, nem crianças nem jovens dignos de grandes suspiros. O sentimento de pena nos toma por completo. Se nossos amados algum dia na vida chegam a fazer a coisa certa, certamente não foi por consciência própria. O que dizer dos amores capazes de converter os enamorados a ponto de haver uma dupla anulação de personalidade ? Eu chamaria estas pessoas de corações-ranhentos, a culminância da mendacidade.

Mas ainda não é bem isto que eu gostaria de falar sobre o amor.

Se nossos amados tivessem lido algo mais prático, como Mauss, por exemplo, saberiam nossos amores que amar alguém é nada mais do que furtar algo daquele a quem supostamente se ama. É o compromisso subtendido por uma mera recompensa por fruição de afetuosidade. Amor sempre foi visto como algo perigoso de ares insolentes e ameaçadores. Não é á toa, que a palavra amor, se utilizada o seu vocábulo, transforma-se em ‘toxina’, se comparado ao antigo idioma germânico. Parece-me que já os antigos desconfiam do aspecto tóxico do afeto. Ou então, mantinham os olhares atravessados em relação ao aspecto virginal das dádivas. O amante oculto, a busca incessante de todas as gerações, incluindo a nossa, é um leve indício de desgraça, de querer destruir o belo e dar espaço para o repulsivo, elevar a promiscuidade sob a máscara da honestidade.

Vamos em frente...

Se nossos amados lessem O. Henry, talvez saberiam que dar amor é como presentear alguém com uma bela pulseira de relógio antigo. Pertencem a uma outra temporalidade, que jamais se ajusta ou se conforma com o meio e as circunstâncias. São, em todo caso, promessas, não obstante, furadas e raramente cumpridas.

Enfim, esqueçam, não há nada para se falar sobre o amor.